** os braços de erva, as mãos de enxada, as bocas de palavras **

inscrevo-me nesta hora demasiado pequena.
numa métrica
inexacta. palavra. ponto palavra.
a oscilação provoca-me
náusea. a corpo todo dorido,
uma paisagem de mim esborratada
pela velocidade. a existência entre um chão
orvalhado e a tua saliva como um rasto
na minha pele. abres-te em rotas misteriosas. como se de viagens
te fizesses. como se a tua língua fosse o veículo
que te serve. chegas. com pressa de chegar. adivinho-te
entre os lugares do meu corpo. todos os lugares do meu corpo
são terminais do teu. estações
rumorosas. de embarque.
anuncio-te uma verdade. como se fosse importante
digo-te há muito que te espero. muito.
aqui
duas asas de vidro. a transparência da minha pele
sob a tua boca. as pernas como linhas.
âncoras de ti.
férreo desejo temperado pelo fogo da alma. murmuro
uma mão e entro na boca das palavras. dedos como
sílabas. luminários
pedaços de mim. de ti.
são pequenas estas asas
de lumes tingidos. quase imperceptíveis degradés de sentidos. do sentido. estas coisas
são entre nós
memórias
onde nos guardamos para uma fronteira
de lírios em rosas. corolas de magníficas pétalas que desfolhas.
numa vulva às mãos cheias. e um agridoce sabor
de mel. e pimenta. lírios, meu amado, *dá-me lírios às mãos cheias,
para que eu espalhe flores
deslumbrantes*.

num pinga pinga
lento as águas do céu. uma chuvilha de saliva astralina
que se explica aqui. a diluição exacta
que preside
à construção desta terra. desta terra de paisagem misturada.
a ausência pode ser uma velocidade alfa
pendular
omega. ó me ga. e o olhar alongar-se
numa invenção para a sobrevivência. sei de cor
os caminhos do meu olhar. sei de cor
a cor dos teus olhos. o ponto exacto em que me
refaço. o ponto exacto em que me diluo.
e depois como se nada mais fosse que caminho, primavera, sementeira
escreves árvore
e do teu ventre
desponta uma ramificada forma de me dizer
:quero-te minha ramo a ramo, grão a grão. descem essas luzes
fugidias, quase fugidias e com elas
vens nos pólens de vésperas anunciadas
nas madrugadas aveludadas da seiva
e do esperma. uma urgência
como pássaro azul rasando o infinito.
onde
mão, boca, palavras se desvendam. é fácil. tão fácil
falar com estas asas.
uma métrica inexacta. palavra. ponto palavra.
a oscilação
provoca-me a náusea das parições. o momento
em que o corpo se convulsiona na verdade. abrindo-se
como asa. como boca. como palavra.
na boca das palavras
a boca do corpo.
alfa. pendular. omega
são sete da manhã
e tenho os braços como verde de erva inesperada
mãos que de enxada te vão sulcando
uma boca
sementeira. não inadiável. assisto a esta paisagem
esborratada pela distância
à velocidade de um pensamento. palavra. ponto. palavra.
a hora mais pequena é esta. pendular.
regresso
a mim.
**jorge guimarães**, gerhard riepler, vassilli kadinsky, nas paisagens diluídas da minha manhã com *virgílio, eneida* . ambulações. circum-ambulações.
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