.comment-link {margin-left:.6em;}

ante mare, undae

Quinta-feira

 




mudámos para aqui


deambulatório

Terça-feira

 
« paz nos desaventos »
de Romaria na voz de Elis Regina

Quarta-feira

 

alfa. pendular. omega

** os braços de erva, as mãos de enxada, as bocas de palavras **




blume4d







inscrevo-me nesta hora demasiado pequena.
numa métrica
inexacta. palavra. ponto palavra.
a oscilação provoca-me
náusea. a corpo todo dorido,
uma paisagem de mim esborratada
pela velocidade. a existência entre um chão
orvalhado e a tua saliva como um rasto
na minha pele. abres-te em rotas misteriosas. como se de viagens
te fizesses. como se a tua língua fosse o veículo
que te serve. chegas. com pressa de chegar. adivinho-te
entre os lugares do meu corpo. todos os lugares do meu corpo
são terminais do teu. estações
rumorosas. de embarque.

anuncio-te uma verdade. como se fosse importante
digo-te há muito que te espero. muito.

aqui
duas asas de vidro. a transparência da minha pele
sob a tua boca. as pernas como linhas.
âncoras de ti.
férreo desejo temperado pelo fogo da alma. murmuro
uma mão e entro na boca das palavras. dedos como
sílabas. luminários
pedaços de mim. de ti.

são pequenas estas asas
de lumes tingidos. quase imperceptíveis degradés de sentidos. do sentido. estas coisas
são entre nós
memórias
onde nos guardamos para uma fronteira
de lírios em rosas. corolas de magníficas pétalas que desfolhas.
numa vulva às mãos cheias. e um agridoce sabor
de mel. e pimenta. lírios, meu amado, *dá-me lírios às mãos cheias,
para que eu espalhe flores
deslumbrantes*.


kandinsky13




num pinga pinga
lento as águas do céu. uma chuvilha de saliva astralina
que se explica aqui. a diluição exacta
que preside
à construção desta terra. desta terra de paisagem misturada.
a ausência pode ser uma velocidade alfa

pendular

omega. ó me ga. e o olhar alongar-se
numa invenção para a sobrevivência. sei de cor
os caminhos do meu olhar. sei de cor
a cor dos teus olhos. o ponto exacto em que me
refaço. o ponto exacto em que me diluo.

e depois como se nada mais fosse que caminho, primavera, sementeira
escreves árvore
e do teu ventre
desponta uma ramificada forma de me dizer
:quero-te minha ramo a ramo, grão a grão. descem essas luzes
fugidias, quase fugidias e com elas
vens nos pólens de vésperas anunciadas
nas madrugadas aveludadas da seiva
e do esperma. uma urgência
como pássaro azul rasando o infinito.
onde
mão, boca, palavras se desvendam. é fácil. tão fácil
falar com estas asas.

uma métrica inexacta. palavra. ponto palavra.
a oscilação
provoca-me a náusea das parições. o momento
em que o corpo se convulsiona na verdade. abrindo-se
como asa. como boca. como palavra.
na boca das palavras
a boca do corpo.

alfa. pendular. omega
são sete da manhã
e tenho os braços como verde de erva inesperada
mãos que de enxada te vão sulcando
uma boca
sementeira. não inadiável. assisto a esta paisagem
esborratada pela distância
à velocidade de um pensamento. palavra. ponto. palavra.

a hora mais pequena é esta. pendular.

regresso
a mim.




**jorge guimarães**, gerhard riepler, vassilli kadinsky, nas paisagens diluídas da minha manhã com *virgílio, eneida* . ambulações. circum-ambulações.




....................................................................................................................................

Domingo

 
ROL DE PEQUENOS E FORTUITOS MILAGRES. COM VISTA PARA A PATAGÓNIA

1.
naquele tempo falavas muito de suicídio simbólico, da queda livre num qualquer buraco, desses negros da construção e lamacentas obrinhas de deus e do público. os operários, na pausa do almoço, entre garrafas de plástico tinto e febras assadas nas fogueiras de barrote, arrotando o poema do vinicius. e eu, nem sei bem porquê, olhava-me por dentro com banda sonora do viegas e anos oitenta e o país esventrado de alcatrão e luminárias e achava a tua ideia um enorme monumento ao lugar comum da morte.


2.
confesso-te que já não é essa guerra ou o excesso de UV ou a falta do ar nos alvéolos brônquicos, ou o PIB, ou a física quântica ou ainda o último livro do auster, não é nada disso que me assola por estes dias. é um facto que as nossas mãos estão tão cravadas de calos e desses pregos corroídos pela ferrugem dos anos, dois mil e tantos, e todavia a ti sobram-te dedos e dedos, ou palavras e mansidões. não possuis, como eu, esse inusitado desejo de perfume de gardénias, não que alguma vez eu possuísse uma que fosse, ou a vontade intrincada de um sexo feito à medida de um tango. submeto-me à ideia de que todos somos muito mais iguais na diferença das pequenezas e ignoro se este é o meu caminho para a pantagónia, onde dizes tu, as vistas tocam o inalcançável. não, o que me preocupa hoje, neste dia chuviscoso e de bruma rala e fria, é ter acabado todas as recargas vénus.


3.
todavia, ela move-se, dizias, e deixa um rasto se bem que não glorioso, ainda assim como que a cauda de poeira luminosa de uma estrela de natal. todavia, ela irrompe numa qualquer parte, de noite, de preferência, e coloca-se bem no centro da mesa, onde antes, minutos, segundos antes, despontava um magnífico arranjo floral e os convidados, em redor, que tagarelavam sobre o perfume das magnólias e das orquídeas, repartem-se agora pão, despojos de dias felizes, ou não, só dias,
gritos e a morte, servida fria como fatias de salame italiano ou mortadela importada. rola um
olho,
um enorme e único olho, uma mão, a mãe que embala o berço, e guernica! não deixo de sentir que tal como tu, pablo, ela move-se, deixa rasto luminoso como uma estrela de natal e …



4.
(subverto este dia chuviscoso e de bruma rala e fria inoculando-me uma palavra: adjectivante, não consubstancial, não essencial: sou da natureza de uma paisagem patagónica em que, arrancadas as rotas parabólicas da pescaria dominical, sobra uma única e ilimitada linha: desconfio que morrerei agora e aqui, de olhos bem abertos, sob a bota militar de algum padeiro universal, mas, que queres, ambiciono a paz dos adjectivos justos e a beleza apressada de uma planura, e fujo, fujo sempre das mãos que amassam diabos e os fazem fermentar lenta, lentamente no quente aconchego do leite materno
:vou-me embora para a patagónia, talvez lá seja ilimitadamente filha)


5.
é que tenho uma cadela rosinha, é preta e desconfio do livre arbítrio


6.
e não é tanto as deglutições rápidas da hóstia familiar, nem o fast-food simplex do acto de contricção abreviado, nem tão pouco o pisca-pisca dos salve-rainha e dos piqueniques de domingo, o que me perturba é a carne ser crime e o crime ser tão minha carne como os ossos. muitas vezes te digo,
lembras-te, dói-me
o esqueleto.
no exacto ponto em que dói descubro, não raras vezes, o aparecimento de mais uma calcificação. alimenta-se da minha inércia, da ausência de gestos que suavizem a minha humanidade. e o crime alonga-se como petrificação da
vontade.
que queres, é tão mais fácil viver
assim.



7.
e, no entanto, na fila néon do supermercado muitas vezes sou assaltada pela dúvida: compro ou não compro um pacote promocional da têvecabo, sou ou não sou
humanamente possível?


8.
é, de facto, já não somos os mesmos – nada desses mistérios que trazíamos agarrados aos ossos permanece à luz dos dias- os nomes que proferíamos ao amar há muito se esgotaram. as mãos vão ganhando a consistência da terra e da penumbra e a água do sangue escorre-nos na água dos olhos. é um facto que os pés que aqui me trouxeram calcam noites e noites e histórias e nomes. great golden copulations, dizes, dessas capazes de amassar a blasfémia com a água do corpo e levedar-nos por dentro um outro e renovado corpo
eu digo, we need…


9.
o que é um verdadeiro milagre é tu existires, e tu não seres
eu



10.
palavras cruzadas: dismenia/dismnésia.
ai,
e os cremes anti-age da lâncome e as arestas tenebrosas nas paredes vazias da memória


11.
regresso a casa, ao lugar de mim e escrevo para o esconjuro acontecer. como, por exemplo
aqui na minha aldeia há dois poetas, um é o cristo pescador de percebes e o outro é o cavador, poeta das hortas e das horas dormentes. mas o maior poeta que conheço é a minha avó
:chama vergas à cadeira de onde os olhos se evadem
para o corpo criar metáforas
e eu,
no esconjuro do próprio nome que me pertence
digo-me de anjos, de peixes alados no meu ventre e
de mãos
transgredindo a progressão das horas.
vou-me embora para a patagónia. levo a minha avó comigo



12.
ou
de manhãzinha, antes de todos acordarem, vou por esse caminho à tua beira (tu não sabes) a que chamei babilónia. pingos de luz escorrem dos aloés orvalhados e a minha cadela rosinha vai de nariz empinado. quando passa uma gaivota há gritos. de gaivotas e de sal estalando nas rochas e lá no fundo, sabes, vê-se o cabo da roca que é só o ponto mais

ocidental.

seguem-me os boney eme
e a importância de ter nascido em mil novecentos e sessenta e dois, na áfrica nossa e ter um pai que gritava em pesadelos de noites húmidas e antes ser portuguesa da guerra dos turras. para provar que não sou escrevo-te esta carta

PMP e lavo bem as mãos
depois de cagar.



13.
é só porque,
de amiúde, os meus olhos descobrem vaga-lumes nas arribas: incendeiam o céu de verões-fátuos e ocorre-me sentar, deixar os bichos sairem das tocas e esperar a queda de estrelas e meninos. zurrem vozes que chegam a esse céu e eu, devagarzinho, começo um novo
tricot



14.
às banalidades de uns e de outros juntemos-lhes essas que os próprios desconhecem
:paixão, morte, milagres de que o mundo se desfaz na razão de cada dia. chamemos-lhes
provisoriamente vida



15.
eu quero
proferir todos os nomes como quem desata umas asas


16.
oxalá.







Sexta-feira

 


do livro do desejo e outros despojos

*1

paisagem queimada em busca
de renovada água
deformidade curvilínea
buscando outra de sustento
: assim é
a terra que trazemos agarrada aos ossos

braços de céu em ruínas
olhos que constroem casas
habitações breves de outros
abraços e mãos
que desenham no horizonte
a boca toda de palavras
sorvendo o ar e soprando
por sobre nós os poemas: por exemplo,
o amor incha homens nos ventres
desabitados das mulheres e
desata as raízes das árvores
em que o sono é flores que disfarçam o sabor acre do negrume
e ensopam de mel e ordem o caos do sangue
para ao fim da noite
as feridas abrirem em fruto
o coração da manhã


*2
narciso
parado em concêntrico deslumbramento
vai parindo de seus olhos
as águas em que um dia
um outro menino
olhando na paisagem industrial
os novos santos
nos novos altares
se baptizará


*3
por exemplo, agora
esta casa
e a ausência de gestos inúteis
que lhe definam e debruem as janelas

por exemplo, agora
esta casa e o pó não acumulado
sobre cada uma das folhas que
árvore ou pássaro
se encolhem entre uma lombada
e outra
e o dourado dos dias
o negrume das noites
e a solidão que rasga
o tronco absolutamente erecto
de uma palavra
ou sítio.

por exemplo, agora
e agora mesmo
a casa em demanda de memória
o lugar comum da ausência
o vazio nos olhos
o peito em qualquer balcão e
dormindo
no aconchego da puta
o poema sardinheira
todo mãos
todo olhos
todo boca de palavras onde
beirais são ninhos de meninos e
pássaros


*4
quando
sem saber de lei nem terra
nosso senhor emboloreceu
na cal branca do papel
o poeta
finalmente
adormeceu

o silêncio então dividiu
a terra do céu
e ao terceiro dia
o poema nasceu


*5
vou, por este leito de luz
e água
os olhos desabridos e a rebentação
toda no peito
: meus seios inventam duas margens-
-minhas mãos escorrem-te
rio a rio
na clarividência de um
poema

sou,
sem que um único baldio
me sustenha
a respiração forçada de uma
única
e soletrada
palavra


*6
haverá o dia, tu sabes, em que nada do que presumes ser poesia terá já o gosto certo. roídos os ossos da palavra sobrará uma única esboroada pedra e haverá o dia em que, tu sabes, pelas areias nesses desertos desabrocharão como manhãs, límpidas e frescas as orquídeas, as magnólias e os outros perfumes de ser belo. as águas calmas no verde serão apenas idílios e novos nomes ganharão o sabor de serem ditos e reditos como línguas equivocadas no céu de outra boca.
"mas nada disto, absolutamente nada disto, tem que ver com poesia": é mais assim como que o corpo feito de sucessivos despojos
metamórficas páginas
um necessário
e urgente
desejo.



continua this is not a love song


seguindo de perto o livro do despejo, do henrique, antologiadoesquecimento.blogspot.com

Quarta-feira

 
1

lume
de secreta e líquida língua
nome
que procura a água de uma boca
ou
um lugar no corpo
que preceda em sede
o amor

: amo esse instante
a brevíssima pausa antes
da nomeação


2

sobretudo e ainda mais
um dia
arrancado palavra a palavra
a este poema

:sobretudo e ainda mais
o segredo de um nome
murmurado gota a gota
entre ti
e a distância
quase imperceptível
entre ti
e mim

sobretudo.
e ainda mais,
amor.



3

em dias como este
lentos
lisos
brancos e quentes
pela chaminé de casa sai um sussurro
um restolhar brando
quase de pássaros
quase de árvores
quase de flor

:cá dentro
o meu anjo
despe as suas asas
e um vento brisa se alevanta
nas planuras do meu ventre

a tua voz o riso manso dos teus olhos
os teus beijos de plumas e de sossego
crescem em mim como mãos
: no fundo que me é terra
filhos raízes desbravam-me os nomes
e copas cópulas de sol
e mar de marés
vêm ver morrer devagar
toda a água da boca
na praia dourada do corpo

(sob a tua língua
amado
eu escrevo vales
concâvos desejos
ou
promontórios de luas e pequenos segredos)



4

quando em abraços por fim
nos caímos
um do outro por fim
saciados
descem por meus olhos os ténues fios
que te hão-de crescer
em novas sedes
em novas águas

e tu
devagarzinho me alisas
a curva mansa destas lágrimas
com abraços longos
beijos e murmúrios apertados entre a carne
como a terra dá ao mar em dias assim
parados
muito parados
quase imóveis


5

não sei de hora mais hora em mim que possa
com o ir
e vir das horas e das marés
ser mais mar
mais outra coisa
que o amor em refluxos
de sal e onda
que o amar-te por sobre o dia
e por sobre o tempo do dia
que olhar o infinito do ir e vir
aqui
perante as ondas
perante o mar
e descobrir que sobram sempre
mais dois
mais dois
mais dois de sal e de marés
mais dois de sal e de marés
e de tempo que se desfaz noutra e ainda
mesma coisa
como areia da praia toda líquida
ou água de mar toda verde
que esconde em si todo o sol
e todo o azul
de céu
infinito

: não sei de outra coisa
amor,
que amar o mar e o amor
amar-te no mar
deste amor
e assim erguer o meu corpo
perante o dia








Sexta-feira

 

pentecostes


gosto de ti. gosto de ti porque vociferas
muito filho da puta e a tua língua é
fogo! tantas línguas e até veludo
e quando desces em mim lambes-me com essa
e às vezes de puta

gosto de ti. gosto de ti porque
não és nada perfeito
e eu
seja ceguinha se acredito nisso






e segue por aqui

águas passadas

Julho 2005   Agosto 2005   Setembro 2005   Outubro 2005   Novembro 2005   Dezembro 2005   Janeiro 2006   Março 2006   Abril 2006   Maio 2006   Junho 2006   Julho 2006   Setembro 2006   Dezembro 2006   Agosto 2007  

da mesma casa

*i'm sick of doubt* *breaking the waves* *let's reinvent the gods* *feast of friends* *i'm a barbie girl* *o baltasar da blimunda. a blimunda do baltasar*

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

*