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ante mare, undae

Terça-feira

 
SUJEITO A TRIBUTAÇÃO



Pardacento e chocho entardecer no choping. Duas safiras com pê agá almoçam à minha frente. Entre-turnos. Saltam fatias de carne exangue e escura da caixa de desainhe plástico tipo taparuére. E um colchão de búzios de massa de trigo duro nacional. Extra cozidos. Os búzios. Uma vestiu uma ti-chârte a cobrir a farda da limpeza. Safira com pê agá. A farda. Passam duas encarregadas. De botas de cano alto ponteagudas os saltos meio bambos bata safira pê agá uma outra não e uolquitólqui enganchado no bolso dos jins. Arrumam umas cadeiras. Falam uns falares que quase se assemelham a falares de coisas importantes. As outras comem. A uma o casaco por vestir afigura-se-me um corpo sem braços. As mangas a-dar-a-dar. Vazias. As bocas cheias. As bocas, todas. As raízes brancas do cabelo avermelhado escuro por pintar de uma. A outra é obesa. O pescoço inexistente faz com que o engolir do comer levante e abaixe as mamas grandes. Umas mamas sem no meio das mamas. Umas mamas só. Como um altar de corpo.
Comem. Pardacentos comeres na zona uaifai do choping.
Eu olho e espero. Estou à espera. Em frente ao faste-fud israelita. De pão pita. Ou pão que não é pão é quase maná. E coisas com nomes improvavéis. De comeres. E é igualmente improvável que as duas comam desses comeres. Usassem botas ponteagudas de cano alto e uolquitólquis enganchados nos bolsos dos jins. Arrumassem cadeiras como quem faz qualquer coisa e andassem aos pares uma de farda safira com pê agá outra não. e falassem coisas semelhantes a falares importantes. Pelo bucal do uolquitólqui. Ou não. de voz viva. As outras vivem na serra das minas ou no mem martins que tanto te fascina a ti que não vives no mem martins nem comes comeres arrefecidos no choping neste pardacento entardecer.
Quando voltarem para casa o altar de uma vai subir e descer com o esforço das escadas e o peso dos sacos continente virados do avesso e cheios dos restos dos fastes-fudes do choping. A outra veste as mangas do casaco ao dependurão. E não tem ninguém à espera. Nem cão que seja seu. Nem o homem que seja seu. Os braços mangados não servem para mais nada. Ao dependurão.


Coro: prophets e pequenos gods artíficies das minhas madrugadas, lugares pouco comuns onde a minha e a tua boca de língua se juntam em mucos e sucos, nomes e tempos de improvável realidade. Let’s let’s reinvent o mundo e deixar um rasto pegajoso de caracol espetando os corninhos no sol, e furando furando pacientemente essa história de amor.

Pepe. Jins.
Setradivárius. jins.
Mangô. Jins: zara, zara, zarajins
jingle béles
jingle béles
é primavera
aqui é primavera. Eu fodo ainda mais.


As luzes piscam. Ou parece que piscam. Ferem a menina dos meus olhos. Nos meus olhos. O ruído é néone líquido. Toma a forma de todo o espaço que ocupa. Se abro a boca entra-me e toma-me, no sangue que é só meu. Não gosto deste ruído que é ambiente musical. Não gosto.
Arroto.
Na mesa ao lado três mulheres jovens e uma mulher velha. Ela tem o cabelo ralo branco apanhado com travessas. Atrás. Só lhe vejo essa nuca rala mas adivinho-lhe uns olhinhos azuis. Uma ralha-lhe. Um ralhar amoroso como por vezes se faz aos velhos. De velho a menino. Ela encarquilha-se em menina. Talvez tenha comprado um pão pita com recheio de novidade e nome improvável. Dos israeles ou dos médio orientes. E isso lhe faça mal. Sempre é faste a fud. E as pernas como os cabelos como a digestão como os dentes, ralos para a faste-fud

E eu penso
Ite faste dai oulde uide a biutifule feice
No choping
Sabes do sabor do mar quando as marés são vivas e os peixes todos em turbilhão num aquário gigantesco de onda e sono se escamam em pensamentos e de cada um dos nomes que se pensam sai um sabor a sarro de noite esturpando a dúvida maior? Eu vi a morte lenta parindo-se da risca de espuma que lambe a praia: caranguejos de forma diminuta lutavam com o peso do atlântico e das américas no horizonte longínquo um homem só gritava
: I will not go. Prefiro a (f)east of friends. To the giant family. Eu, encolhida entre os folhos da manhã, esticava braço e com a mão quase lhe enxugava o sal da face. I touch his face and god moveu-se em misteriosas palavras.


A luz esbate os corpos e deixa um cheiro a feliz e a música ambiente é tão ruidosamente líquida que o coração bombeia meios grifos meias harpias quase sustenidos suspiros em allegro molto vivace
Arroto. A mesa renova-se de iguarias distantes. Sempre distantes.
E eu penso
Beijinhos querido beijinhos porque a felicidade alberga a própria e sua impossibilidade e eu estou à espera aqui nesta terra de ninguém e de todos uma fingida aldeia de terra global em que os comeres são nomes estranhos ou dão à costa em búzios de trigo duro nacional e os manequins me piscam olhos de vidro e pernas de pau e só preciso de uns corsários de jins morgan e uma blusinha zara de folhos a condizer para aportar com eles num rife do pacífico.

Sms: um pensamento antes do sol para que seja maior a luz do teu dia, mar.

Sms resposta: saquear o teu corpo mesmo na distância mesmo na ausência e fugir fugir fugir desta música líquida desta luz feliz e destoutro mundo quase aldeia quase terra quase global quase dei-te quase tudo e quase tudo foi demais gonza no ambiente e eu sei
A excomunhão escreve-se em pouquíssimas palavras
: eat me.
this way.
The end.

Há um anjo azul em quase todas as esquinas deste tempo. deste meu tempo. roço as suas asas e o dia assemelha-se a uma cama fofa cheirando a madressilva e eu
: deita-te comigo para que as tuas asas sejam o fazedor do meu sonho e
amanhã
quando despertarem os meus olhos eu só
te veja
a
ti.

E tu
: dorme um soninho descansado. Estou aqui
deitado contigo
no veludo profundo da tua pele
e se os teus olhos
amanhã quando despertarem
só me virem
a
mim
tudo está bem. E é bom. Muito bom.


Coro: que linda falua que lá vem lá vem
É uma falua que vem de belém
Estou doente da dúvida mais gigante de todas. O dia tem garras compridas e quando me sento aqui
Aqui mesmo me deparo com três pratos
: escolho o menor, cabe em todos os outros. Pinto-lhe-me uns olhos para um peepshow-mim. o olho esquerdo é um garfo. O direito uma faca e se acima como abaixo, eu fendo fodendo o dia e este enorme pão de cada dia. stop
:a digestão, como a excomunhão, começa na boca.


e eu penso
a vida é má literatura penso pantagruel alecrim mangerona e caril de lagostins com murganheira tinto. Quase sinto a espuma a debruar-me os lábios. Estico a pontinha da língua. Faltam-me uns quinhentos euros para atingir a dignidade de uns lagostins. Lagostinos pescanova. E umas botas ponteagudas de cano alto saltos bambos de cunha e linóleo barato para pisar como quem anda sobre qualquer coisa. Um mundo. Por exemplo. Ou voltar para casa. Para a minha própria aldeia em desafio constante nas arribas à beira mar: a derrocar a derrocar


é que
aqui na aldeia pesca-se sargos e robalos. À linha em desafio radical nas arribas em danger de derrocada. Uma vez sentei-me por ali a ver o mar espumante e veio um pescador e o cão que era seu. Não é que te vais atirar, pois não. pois não. estou só a ver os sargos e os robalos no esverdeado do mar e a escamar pensamentos. a maresia lava-me a cara e o ribombar das ondas nas pedras apequena-me esta dor de ser. ou não ser.
aqui não há faluas, querido, mas os mundos todos abrem-se ali mesmo em baixo e eu navego-os enquanto examino a altura entre mim e a linha de espuma que as ondas deixam nas pedras. Sou pequena e
faltam-me aí uns quinhentos metros para atingir a dignidade de uma onda. Ou de um caranguejo.

É primavera. Até os caranguejos
Fodem de lado
Ainda mais. Numa dança enlouquecida
Juntam-se numa poça gigante e
Deixam-se ir
E vir
Com o sal
Com a lua que só se adivinha
E o reflexo líquido do sol que dá forma
E cores todas reinventadas às suas tenazes.
Desejaria para mim
Para ti
Duas tenazes para agarrar o tempo
E o salpicar de espuma. Ainda que efémera
Essa é a idade do sal a idade do sal
Em si mesma uma e muitas. Em si mesma muitas.

Caminho dobrada sobre mim mesma
Sentindo a falta de conexão
Entre esse útero de águas revoltas e salgadas e
O meu próprio
:pari-dor.
As pedras que a beira deste mar
Lança nas arribas laceram-me
Os pés. E eu,
Como outros antes de mim, não sei nomeá-las.

E todavia aqui na aldeia não nos falta nada. Nem o
cristo. que vem de manhã vestido de fato integral de mergulho e gorro de lã riscado e de pompom. Ao longe parece que caiu do céu. Mas não. Pisa as calçadas estreitas com sapatos de outros domingos e sem meias arrastando um camaroeiro gigante. Com mexilhão. E percebes. Ao final do dia metade deu metade trocou por tinto tetrapaque. O vinho é a maior das suas veritas e eu até sei que se o tetrapaque lhe acomodar uma lágrima ele irá dizer com a vox tingida
: penso pensamentos. E voltar para casa arrastando um pé de pato uma rede vazia e o corpo todo pela estrada. Desenha uma risca torta na terra. Que é o caminho do cristo pescador. E o nosso.
Chiu: não digas a ninguém.

Onde procurar o sabor escondido do tempo líquido, do tempo por inventar em que peixes e homens se lambam em escamas e se diluam em pensamentos que se pensam e se reinventam ? deus dá-se em sal e as estátuas que lhe edificamos ressumam apenas ao sarro da noite eterna. O esquecimento embala-se em redenções tetrapaque
:numa só encruzilhada resolves em golfada toda a tua vida
:não sei de deus e os meus olhos faca e garfo comem-me a mãe e comem-me o pai e deixam-me orfã de pedestais. Perfilhar-te-ei
para fazer de ti a minha montada.


( sms: Tu usas água de colónia hugo e cheiras tão mas tão bem que dá vontade de te comer. Vem-me essa água da boca e incham-me as papilas e o sexo. Que é quase o mesmo. querido.
Sms resposta: mas choro porque sim porque a vida é uma estrada de risco ao meio. De um lado eu que sinto quase o teu gosto. Do outro uma terra que cai no abismo do mar de sargos e de robalos e se desenrola em espuma que não é de murganheira nem de ti nem de deus em marés de viva vox.)

Aqui na aldeia não nos falta nada
os aloés têm uma tesão enorme e na pontinha mais alta da quase glande abrem-se em beijinhos de língua e esperma de seiva.os aloés são curativos. Aqui na aldeia à beira do mar os aloés andam aos pares. E crescem em danger nas arribas que derrocam derrocam derrocam.
Um dia vou beber-lhes o suco todo gota a gota. Para curar o cancro da alma e ter essa tesão desmesurada que faz a gente crescer crescer crescer mesma à beirinha do mar nas arribas em derrocada a dar beijinhos de língua e a gritar uma folha gorda gorda gorda de inchada alegria verde.

Monto-te que é quase o mesmo que te comer. Ou beber os sucos. Vamos?
Até à eternidade? Esse tempo tão alongado, interstícios de salivas e esperma, luas de conas e caralhos que fendem acima como abaixo o lugar comum de deus? Que outro nome
Dar a foder? Nenhum desoculta tão perfeitamente a vontade
Os corpos, e eu, e a falta de deus e digo
: é primavera
fodo ainda mais.


(sms: ‘tás melhor, querida? beijinho
sms: vou ver o aloés a sua tesão verde e florida e os beijinhos de esperma e de seiva e a alegria gorda. Tou melhor nas arribas à beirinha do mar crescendo aos pares. De um lado eu. Do outro um cão que não é meu. E no meio o pescador cristo que caminha a direito pela risca torta com os seus pés de outros domingos. É quase um caminho. Quase uma vida. Quase. Beijinho. Querido.)


Aqui nas arribas da aldeia à beira do mar o pescador que não é o cristo e o cão que é seu esperam esperam esperam que o peixe pique e o dia esmoreça a meio para voltar para casa no automóvel furgão de cesto de sargos e de robalos. O milagre tem uma pele tisnada e outra não. o pescador que não é o cristo espera e o cão que é seu senta-se direito sobre as duas patas traseiras. Come os peixes que não são sargos. nem são robalos. É o suchi de cão. Condimentado de luas e marés. E sal de face de deus e algas e por vezes uns grãozinhos de areia. Brilha. O cão. E sabe a atlântico a fugir daqui até às américas onde o sol explode na risquinha que é o horizonte. O peixe que não é sargos. Nem robalos.

E eu penso
Também eu pensamentos.

Coro:
Passará
Passará
Mas algum ficará
E se mais houver que a baba deste momento
Lhe cole os nomes.

Que linda falua que lá vem lá vem



( sms: tu cheiras tão bem e sabes tão bem que apetece comer-te. que é quase o mesmo que foder-te ou suchi de peixe que não é sargos nem é robalos e é ondinhas do mar roubadas à lua e às marés parideiras e eu e a boca que é minha dizemos que a espuma que nasce do teu corpo quase debrua os meus lábios de tinto murganheira e com a pontinha da língua que é minha lambo os cristaizinhos do doce sal que tu deixas quando vens e vais e vens e vais e vens e vais. Querido.)


Coro:
O meu cabelo ainda enrolado pela madrugada
Cai na mesa deste choping pardacento
Em dois mil e seis na graça de umas cinco e meia da tarde
: efémera. idade.




( banda sonora interior com palavras do jim morrison. e algumas escamas que se seguiram para os amigos que, como diz o herberto helder, amo como cinco dedos da mão:

clicar
para escamar
de rajada, que é como escrevo)

Quarta-feira

 
DENTIÇÃO INCOMPLETA

*o amor é tudo – excepto o que deveria ser * luísa monteiro


comíamos nêsperas maduras sentados no muro
ensolarados de tanto abismo lá em baixo
de tanto sol lá em cima de tanta doçura de frutos e de tantos dentes de morder frutos e línguas de chupar sumo de frutos maduros e tu
: à noite sonho com peixes e abismos de mar e ventres de mulher e brancuras de beijos de mulher e filhos peixe de ventres líquidos de mulher
mas
sabes, a noite tem pernas curtas como a mentira
a morte
vem sempre primeiro como uma manta de papa e dedos ásperos
o tempo nunca chega e é sempre como o sumo
a escorrer
às vezes doce
às vezes só maduro
e sobra sempre tudo que é a morte.
a minha canta-me
dorme meu menino de oiro e até parece dois olhos grandes e umas mamas de leite branco
quente quente, mas não é, não é,
e, sabes,
nunca fiz um filho
nunca nunca
fiz um filho

e eu
: quando eu morrer quero ser cremada e soprada em cinza de ramo de nespereira maltratada. sabes
as nespereiras mais maltratadas
dão as nêsperas mais doces
e tu
:cuspo sempre caroços grandes grandes demais para a minha boca
e o céu da boca fica maltratado de tanta semente
assim
gorda
como palavras doces e inchadas à procura de nome

dizes
: nunca nunca fiz um filho
ainda assim
sonho com mamas grandes de um leite branco
e abismos que são ventres líquidos de mulher
e têm dentro peixes com olhos
exactamente iguais aos meus. estranho
o nome de uma mãe
desenha-se na minha boca quando chupo desse leite
branco
e nado nesse ventre líquido ao lado dos peixes
com olhos exactamente iguais aos meus. mãe? sim?
nada, não é nada.

eu
:sei que a
minha morte tem a minha cara e o nome que
não me dei e a minha própria boca cheia até ao céu de palavras
doces
inchadas de todos os nomes
excepto os que deveria ter
por exemplo
:amor.
que é quase tudo
excepto o que poderia ser.


primeiro:
está frio. e é noite. está tanto frio que me doem as letras nas articulações entre parte de
uma palavra e
outra.
frenéticas de dedos e pensamentos mancham a noite. a fingir de dia. o meu gato também finge
cloacas à noite
em equilíbrio sobre os muros de paredes estreitinhas
corre e não corre
e dá-se em fodas tão fingidas como estas palavras

(invento-me. e sobra-me sempre tudo)

para afugentar a pretidão da noite
a pretidão

o olho do cu do meu gato é um enorme vazadouro de pretidões e ele importa-se lá
foder
é para nós
que não somos gatos e temos cloacas ou olhos de cu
e medo da morte.
neste janeiro em março
oiço-lhe um longo miado.
enrabada na noite
a morte que dele espreita sai com passinhos leves
não faz um filho
não
não precisa.
a herança de um gato é sempre a própria morte
simples
branca de leite e quente quente. pequenina.
a minha
não. a minha morte é enorme como dois olhos vazadouros de palavras sem nome. e peixes com bocas cheias de palavras tão sem nome como as minhas. por exemplo
: o tempo do tempo todo
escorre-me dos dedos
como as nêsperas em sumo nos escorrem
sentados
ensolarados e
cheios de abismos com mães por dentro

mãe?
sim?
nada, não é nada

segundo:
o mar. ecoa contra as arribas desta terra
aqui
e dá-se em orgasmos de sal que se colam às janelas da nossa casa corredor. contemplo
esse som colado ao vidro e sei que é por causa do sal
suor cuspo lágrimas tudo
de tudo
que o vento é maresia
: sinto o meu ventre como maré de mar
que vai e
vem. em ondas de tempo salgado e luas e sóis e ainda outras e mais luas e
outros e mais
sóis. o meu sexo incha e dá-se
em águas salgadas
e em palavras que me escorrem pelos dedos como filhos
peixes maduros
de olhos exactamente iguais aos meus

mas
nunca nunca fiz uma palavra que fosse um filho teu maduro
ainda
de doce e nome por dizer

e do amor sobra-me sempre tudo – excepto o que deveria escrever

por exemplo: tenho todo o tempo para te dar
e

se escrevo é para inventar esse abismo em que
as águas da minha morte se separam.
por cima um céu de boca a escorrer sumo
por baixo um imenso olho em que a terra se abre
como um ventre líquido de mulher
com mães por dentro
e
a morte é apenas mais uma parideira
da minha noite noite e da minha noite dia


caminho por cima das águas e os dedos
gritos prolongados de gaivotas
são apenas asas curvas e ponteagudas que furam a própria pretidão

mãe?
sim?
nada, não é nada

terceiro:
sabes que usa uma espécie de cola que mantem os dentes falsos na boca
para quando falar mentir
com todos os dentes que tem no céu
da boca?

a dentição incompleta e por cada falsa
verdade um pensamento é arrancado à terra límbica que são os céus todos líquidos de uma mulher por dentro. acorda, vá, o veludo listrado de esperma vermelho
do sofá
grita em mãos e em bocas: que será que acontece ao tempo todo ao tempo
de tudo
quando já não temos dentes de morder e deixar que o sumo escorra
pelos cantos da boca cloaca mundo todo? é assim

a minha boca como o tempo todo esvazia-se e fica só um céu por cima e águas que já não se separam
e onde o branco branco
quente
é o teu e me escorre em não palavras em não nomes
e o tudo que é
excepto o que deveria ser


anda
vamos lagartear ao sol e deixar é cair uma parte de nós
essa que é tudo o que deveria exactamente ser
como cometa lagartixa e
rir
que a cauda de uma lagartixa cresce ainda que arrancada
quem me dera que o amor fosse assim, digo
pois, dizes,
um tempo esperma vermelho
de mãos e bocas
caudas cometas de lagartixa e miados
de gritar e foder a morte


quarto:
meu homem, diz lá
se te comer do pão com a boca toda e te beber
três vezes do vinho
com a boca de dentes toda
achas que vou direita ao céu da boca do teu amor?
sei lá,
depois de sonhares abismos as águas entram pelos olhos
e desatam-se em palavras sem nome
e nunca mais o amor é assim uma espuma como a do mar
leve
leve
tão leve que em tempos certos até pode voar

achas que o amor que é tudo
e mais essa palavra sem nome
pode voar-me por dentro?
não, o amor é tudo excepto essas asas nos pés. tem pés de chumbo e
puxa-te para uma pretidão tão preta que nem a ti
própria reconheces. não se dá em nomes
não conhece o teu rosto. anda por lá
meio às cegas e de vez
em quando
desata-se na tua língua
desfaz-se na tua pele como outrora a espuma de mar
e
tu cais lá dentro e é como um ventre fecundo
sempre a parir dias sempre a parir noites e
depois nunca mais caminhas a não ser agarrado a esse chão
voas, se calhar voas, mas é rente, sempre rente
à cova que os teus pés marcam
porque é assim como morrer
só que antes do tempo
antes do tempo todo do tempo

olha, uma cauda de lagartixa a caminhar sozinha.
é.


último:
estou só
com o meu gato de cloaca fingida estou só
e está frio e doem-me as articulações entre um pensamento
e uma palavra sem nome. doem-me as carnes em que os pensamentos à procura de nome
se dão em palavras e dói-me o meu sexo
inchado de tanto pensameento.

a avó dizia: veste a cinta, menina, aperta as carnes
e eu:
as minhas carnes crescem no exacto ponto em que a minha cona ainda ratinha de pelo penugem
deixa ver as entranhas do meu tempo
as minhas carnes é uma nêspera ensolarada e abismada
de sumo a escorrer pelos cantos da boca céu
e a sobrar em filhos de palavras sem nome
e filhos de homem
que não é o meu


chego-me ao meu homem de cheiro a meu homem e quase
sinto o cheiro do meu futuro tempo. mordo-lhe na boca um nome
para esta palavra sem nome.
o seu sangue tinge-me a noite e
separa os abismos do tempo. o meu ventre
líquido de todas as mulheres
dá-se em espuma
sim
leve
leve com sapatinhos de cristal que até podem fazer voar
e eu
digo vem
faz-me o amor em letras de carne
e dá-me
um nome porque


está frio. frio de orvalho que pinga não pinga nos beirais da nossa casa corredor e penso que tenho para aí oito anos e de pernas nuas e saia rodada sinto um lagarto descer pela roda ó i ó ai e não sou a carolina
mas estou do lado de cá do muro de parede estreitinha e os meus irmãos a gritarem
anda lá ó cagarolas ovo podre

oito infinito
par de olhos que espreitam a minha ratinha de pelo penugem e um fiozinho de sangue que é todo o tempo que havia nesse tempo
e não menstruo
sou uma menina que não corre e está em frente a um muro de parede estreitinha e alta
muito alta

gotas de minúsculo sangue caiem nos abismos da cloaca terra e
o futuro é o meu sexo amadurecido como uma nêspera maltratada
(são sementes pequeninas, meu senhor, são sementes)
e com a boca cheia cuspo dias e cuspo noites
sementes de pretidão tão preta e tão pesada como cobertores de papa

o meu sexo não tem nome. mas poderia até ser gato.
ou ter o teu. de homem com cheiro a meu homem

deste outro lado do muro imagino até que posso ter oito anos e corro pelo muro em equilíbrio atrás dos meus irmãos
anda lá cagarolas o último a chegar é um ovo podre
e as pernas nuas e não uma saia mas um lagarto a comer
me
o sangue e não menstruo é apenas um joelho esfolado
ou uma ferida de tempo no tempo
ou um futuro de filhos a escorrem
entre as pernas e

Mãe?
Sim?
Nada, não é nada

o meu homem cheira a meu homem e dorme ao meu lado
nesta pretidão da noite com roncos brancos de mar
e sangue e sal e cuspo e esperma de onda
de onda
do meu ventre abismo saem peixes de olhos
exactamente iguais ao dele
só que os dele estão escondidos atrás do sono
e nada, não é nada
apenas o tempo a roer
me
por dentro dos teus olhos que não vejo
das tuas mãos que estão enconchadas entre as tuas mamas
pequeninas
fingidas como mamas de mulher
mãe
o meu homem que imagino ser a minha mãe
e dar-me a beber o leite quente das suas mamas fingidas e colo
de mulher.
mas não. o sono dorme-o.

e eu
: não tens útero para tanto filho,
não tens.

e caminhas com os sapatos de chumbo
do amor

essa palavra sem nome
escreve-se torto pelas linhas a direito do
meu corpo

acorda
:quando eu morrer quero-me cinza no tronco
de uma nespereira
a mais maltratada e doce nespereira
depois
come dos frutos e cospe-me
em caroços
não sementes
não sementes
ao sol
ao sol


e anda lá, vem
amar-me ainda assim
ainda que na maior pretidão
a boca cheia até ao céu
dos abismos de peixes olhos
com o tempo a espreitar por entre a morte
e essa noite de muro de parede alta e estretinha
:do lado de cá é o amor que é quase tudo-excepto o que deveria ser
:do lado de cá são os meus quinze anos
e menstruo
:do lado de cá o tempo todo que havia de haver nesse tempo todo e

finalmente
não parir-te um filho
antes
apertar-te entre as carnes do meu próprio nome

dizes
:perfilhar-te

que é tudo o que deveria ser. o amor.

águas passadas

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da mesma casa

*i'm sick of doubt* *breaking the waves* *let's reinvent the gods* *feast of friends* *i'm a barbie girl* *o baltasar da blimunda. a blimunda do baltasar*

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