*1 paisagem queimada em busca de renovada água deformidade curvilínea buscando outra de sustento : assim é a terra que trazemos agarrada aos ossos
braços de céu em ruínas olhos que constroem casas habitações breves de outros abraços e mãos que desenham no horizonte a boca toda de palavras sorvendo o ar e soprando por sobre nós os poemas: por exemplo, o amor incha homens nos ventres desabitados das mulheres e desata as raízes das árvores em que o sono é flores que disfarçam o sabor acre do negrume e ensopam de mel e ordem o caos do sangue para ao fim da noite as feridas abrirem em fruto o coração da manhã
*2 narciso parado em concêntrico deslumbramento vai parindo de seus olhos as águas em que um dia um outro menino olhando na paisagem industrial os novos santos nos novos altares se baptizará
*3 por exemplo, agora esta casa e a ausência de gestos inúteis que lhe definam e debruem as janelas
por exemplo, agora esta casa e o pó não acumulado sobre cada uma das folhas que árvore ou pássaro se encolhem entre uma lombada e outra e o dourado dos dias o negrume das noites e a solidão que rasga o tronco absolutamente erecto de uma palavra ou sítio.
por exemplo, agora e agora mesmo a casa em demanda de memória o lugar comum da ausência o vazio nos olhos o peito em qualquer balcão e dormindo no aconchego da puta o poema sardinheira todo mãos todo olhos todo boca de palavras onde beirais são ninhos de meninos e pássaros
*4 quando sem saber de lei nem terra nosso senhor emboloreceu na cal branca do papel o poeta finalmente adormeceu
o silêncio então dividiu a terra do céu e ao terceiro dia o poema nasceu
*5 vou, por este leito de luz e água os olhos desabridos e a rebentação toda no peito : meus seios inventam duas margens- -minhas mãos escorrem-te rio a rio na clarividência de um poema
sou, sem que um único baldio me sustenha a respiração forçada de uma única e soletrada palavra
*6 haverá o dia, tu sabes, em que nada do que presumes ser poesia terá já o gosto certo. roídos os ossos da palavra sobrará uma única esboroada pedra e haverá o dia em que, tu sabes, pelas areias nesses desertos desabrocharão como manhãs, límpidas e frescas as orquídeas, as magnólias e os outros perfumes de ser belo. as águas calmas no verde serão apenas idílios e novos nomes ganharão o sabor de serem ditos e reditos como línguas equivocadas no céu de outra boca. "mas nada disto, absolutamente nada disto, tem que ver com poesia": é mais assim como que o corpo feito de sucessivos despojos metamórficas páginas um necessário e urgente desejo.
“Paço de Arcos vive um momento único, no qual Cristo foi para umas merecidas férias e só existe o Comandante Guélas. Passou-se de uma moral como obediência a um sistema de regras, a uma ética pessoal, a Paço Arquiana, que obedece à estética anti-comunista do Ratinho Blanco.”
Quitéria Barbuda in “Viver no Paraíso”, Revista “Espírito”, nº 35, 2006.
Depois de tanto tempo... lembras-te de mim? Sou eu, a Sandra, do antigo blog "O Abismo Negro de Sonhos Esquecidos" (Void)!! Pois é, a vida pessoal e a sua reorganização levou a um certo afastamento meu da blogosfera, mas... (e sublinhando desde já que está tudo muito bem) com nova motivação e muita, muita organização e rigor, vou retomar a coisa: "O Abismo...2", com mais maturidade e exigência. Deixo aqui o endereço. Gostava de te ver por lá, pois, os teus comentários são daqueles que valem a pena ;)
Tive um problema com o Template do "Abismo" que te dei conhecimento e estou a fazer a reconstrução do blog num novo endereço. É igualzinho ao primeiro (estou a reeditar os posts), o que muda é só mesmo o link. Assim sendo, já sabes!