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ante mare, undae

Quinta-feira

 
Ta ta ta, tanta pomba assassinada, partimpim, trolaró
E mais umas merdas de natal


descurto bué o natal aqui na minha aldeia o natal é luzinhas de mangueira pisca pisca a debruar as varandas das casas faz lembrar os filmes doliude arbustos mirrados podados em forma de pinheirinho pinheirinho enfeitados com fitas chinesas desbotadas e bolinhas meio mancas há mais dinheiro para copos e uma gaja já nem pode comer um pão de leite com fiambre e mantequilla porque só te querem enfiar bolo rei e cenas com passas e nozes numa orgia de frutos secos e frutas cristalizadas e comidas próprias do natal e do espírito de natal como a reconciliação a paz na terra aos homens de boa vontade a meia dependurada na chaminé e um gajo anafado com aspecto de obeso mórbido entalado entre uma coca cola e as eleições livres no iraque que até comoveram um tipo meu amigo que é pró liberalismo mas isso é porque o gajo é um romântico do caraças e ainda acredita e eu digo é mais fácil um americano passar pelo buraco de uma agulha que um iraquiano ter voto na matéria

descurto bué o natal porque já sabemos como a história acaba e não tem um final feliz o herói morre a mocinha corta os cabelos e dizem que veio para a europa com o filho que o pai nunca reconheceu segundo o são dan brown curto mais o pinóquio ou o quebra nozes versão barbi aí ao menos o bem vence o mal e o pai é um gajo chamado gepeto que até arrisca o pescoço para salvar o filho

descurto bué o natal porque descurto o fiel amigo é seco enfia-se entre os dentes faço sempre uma bola ao canto da bochecha como os hamsters e tenho de arranjar desculpa para ir cuspi-la porque os guardanapos são de linho e renda da avó, ó filha, e a minha sobrinha escreveu um e-mail ao pai natal e deixai vir a mim as criancinhas ó senhores a pedir o disco dos d-zert esses tipos que encheram o atlântico e puseram o pessoal a gritar até ao haiti que cena que cena marada os gajos vendem mais que pão quente e até já são bonecas tipo mete no bolso e leva pra toda a parte e têm acessórios muito quinquis como microfones e carros descapotáveis com bancos reclináveis descurto bué o natal porque na televisão só passam filmes de natal com o silvester a declamar I love america america is mai drim episódios de natal com festas de natal em escritórios na city em que o pessoal fode na varanda entre uma rabanada das deles e um flute de espumante de pé de atarrachar e é tudo dobrado em portugês e as gajas dizem hummmmm e ahhhhhh e não há tradução possível para tanta fodilhice mais mal enjorcada pode-se lá foder em paz no natal de um edifício de trinta e muitos andares o vento até te leva a tesão


descurto bué o natal com os néones a dizerem quanto natal queres as capas de revista muito glamour em ton-sur-ton-sur-noel-xmas tudo é branco tudo é vermelho e invariavelmente a elsa raposo aparece meio nua embrulhada em sedas douradas ou em pompons encarnadinhos o pessoal baba-se todo e diz esta gaija é boa comó espírito de natal na página seguinte invariavelmente par impingem-nos o carro-gaja-modelo ipsilon a um preço escandalosamente natalício sem juros com todos os optionals que um verdadeiro rei–gajo-que seja-gajo-mago tem direito vomito mais natais pelos olhos que mais os natais do hospital onde aparece o eládio clímaco preso por grampos o gajo ainda não morreu os velhinhos as criancinhas os doentinhos os emigrantezinhos as cançonetas pimpuneta pelos caminhos de portugal a mónica sintra os corais da terceira idade descurto as reedições punheta em capa dura dos clássicos do mundo e arredores e uma gaija vai ao modelo e faz rali entre as promoções dos cristais d’arques e as garrafas de malibu e os livros das rebelos e das rititi os sonhos são sempre de papel chupóleo e do dia anterior e eu vi uma escola inteira profes primários e auxiliares de acção educativa e tudo entrar no olga cadaval para um concerto com barretnhoss vermelhinhos e branquinhos e luzinhas intermitentezinhas os narizes ranhosos de renas sobreaquecidas e os olhos arremelgados de tanta tanta mas tanta merda de natal as profes gritavam esganiçadas de espírito natalício não saiam da fiiiiiiiiiila e os putos respondiam a tooooooodos um bom natal as boquinhas e fazerem o oooooo longo e todos os músicos paravam para ouvir e balançavam num pé e noutro um quase caía porque levava um contrabaixo iam todos de preto o que é a cor mais natalícia que eu conheço


descurto o glamour o natal da agustina em que as criadas de servir usam aventalinhos de cetim e dizem sempre sim minha senhora e à noite enquanto as senhoras rezam ao menino jesus e à sagrada família são comidas pelos patrões e pelos patrõezinhos sempre em quartos de saguão com a boca bem fechadinha xiu minha linda os natais de públicas virtudes de persignação e de consolo em que as mulheres se dão à azáfama e os homens regressam às sete e meia da tarde para a ceia com passagem pela tasca os natais dos merceeiros com cabazes e garrafas de tinto da terra prós doutores uma garrafinha é só uma lembrancinha e mais as broas e mais as porras do costume no sítio do costume

descurto o natal
porque a malta senta-se à mesa da consoada todos lampeiros todos perdoadinhos todos vestidinhos de lavado e traz o velho do lar traz a tia da terra traz a prima desavinda e mais os herdeiros das traquitanas dos velhos que não fodem nem saiem de cima a ver se entre um copo de favaios e um tinto de borba os amaciamos e depois do natal vai tudo pró lixo ele é pinheirinho ele é papeletas ele é embrulhinhos de boas vontades e velhos e rabanadas secas e ossos de peru e as prendas da adosinda compradas na loja dos trezentos

descurto porque sim porra e mai nada


descurto o natal desde que me deram uma tucha e eu queria era um action man de cavalo e tudo desde que fui ao circo chen e o palhaço rico enfiou uma chapada no palhaço pobre deu-me cá uma vontade de lhe gritar porco capitalista cabrão prepotente e quis logo cantar a internacional versão palhaço mas depois o palhaço pobre deu o cu para o palhaço rico lhe enfiar o calcanhoto e I love o meu mundo o meu mundo é o meu drim

descurto o natal porque está frio e gelam-me os ossos e fui aos correios e deparei-me ali mesmo nos cêtêtê com a maior livraria que existe em sintra o pessoal enfia as cartas de correio verde num bidão e enquanto espera su vez põe-se a ler o paulo coelho o que predispõe qualquer alma para a imortalidade descurto o natal e os sucedâneos do natal como descurto o sabor a unto rançoso dos chocolates espanhóis descurto bué profiteroles oves moles e trolaroles e o correio de natal porque me entopem de crédito para as viagens de fim de ano e há cenas tão improváveis como receber as boas festas em todo o lado e tá tudo cheio de tantas não–há-cu- que-aguente-boas-vontades e trolaró e riem muito e riem muito, porque porra é que riem muito e dão muitos beijinhos e chovem perus como pombas assassinadas e recordam-se os mortos de morte matada e recordam-se os vivos de vida matada na missa do pé de galo e diz-se que o menino é salvador e vai uma lambada no puto que quer brincar com as ovelhinhas do presépio vivo e vai haver eleições e há um gajo a precisar de um lifting facial outro a dizer que não é político então que porra anda a fazer a chagar o pessoal outro diz que vai ganhar com essas mãos que amassam as palavras como pão nosso de cada dia nos dai hoje vai vai mas é ganhar juízo outro estatisticamente está morto outro fala da autoeuropa e é cego surdo mudo mas ninguém sabe perdoai-lhe senhor porque o gajo perdeu a estrela e a foice e o martelo agora é mais um maço para as estacas enfiadas pela nossa goela e o people inteligente que sa farta dos blogs acha tudo a sério e escreve posts a cascar neste a cascar naquele e a pensar e a analisar e a prognosticar e mas que porra há para pensar, esta merda toda é mesmo isso, cheira a merda, sabe a merda, é merda e nem preciso de provar nada para saber, sei claramente sabido, vi claramente visto, sabe claramente a merda e o medo mata mais que o cancro e o pessoal tem é falta de tomates é o que é e digam-me lá estou do lado de cá ou do lado de lá porque eu passo-me com esta cena

descurto o natal porque o trivial pursuit agradece às sepaice garls e ao gorbachov deite quase tudo e morangos silvestres digo com açúcar o pessoal crispa-se encrespa-se e é preciso gostar de alho diz a gaja do canal dezoito viver dos carecas é qu'elas gostam mais desconfio que esta careca está bem à mostra e descurto bué o natal dos passarinhos nos ninhos da não é verdade tanta pomba assassinada e o raio da moura guedes a achar que me importa um colhão saber que vai embora com pena de ir e o idiota ser uma reedição da presença de natal e a ferro ter uma página numa revista, sei lá qual, e escrever cenas como a que li uma gaja fica prenhe depois de uma one night stand e com todo o amor da vida mete ao filho o nome do pai que não sabe do filho que fez e que agora tem vinte anos e se parece com o pai que não conhece em nome do pai e do filho e da mãe também amor e dedinhos do pé que porra de publicidade mais vida que porra de moralzinha pobrezinha desenxovalhadinha graças a deus existem as ajudas de berço graças a deus as meninas tão pequeninas fazem os ninhos com mil cuidados, graças a deus o papa acabou com o limbo senão iam directos para esse improvável lugarzinho que dá razões às novenas e às genuflexões, genuflexão por genuflexão eu cá prefiro as do ajoelhou vai ter que rezar de um fellatio cheeeeeiiiiiinho de white xmas, e apetece-me é dizer comós espanhóis me cago em dios, coño, e se existe vida noutros planetas que seja mais inteligente que neste diz o axisene e eu concordo pela simples razão de ser a favor dos extraterrestres e dos ufos mais que dos ovnis e ainda vamos ter que gramar o pavarotti o bocelli e esses gajos todos tipo corvo a cantar a capella nos xmas cânticos sempre em estrangeiro com legendas que poderiam é dizer eu estou a sonhar com um natal branco e os gajos do black é beautiful vêm e roubam o branco mais branco não há iô vamos arrebentar esta cena toda roubar o menino jesus ai que pecado ai que o senhor prior até teve uma paragem digestiva entre um papo de anjo e a barriga de uma freira e todos gostariamos ter um momento na vida em que gostaríamos de

desaparecer e

até pode ser com gps nas imensidões ho ho ho do branco mais branco não há o elton john casou com o namoradoque porra já nem os gays são revolucionários e houve uma mega festa com os british de bandeirinhas e canecas com os noivos e tudo no natal que é xmas e xxx que é como quem diz ‘jinhos e mais a pesca da sarda do biqueirão e do linguado que está protegida e já posso dormir na paz do senhor, assim seja

fodasse ou está tudo louco ou eu já me passei de vez

descurto bué o natal porque sou uma gaja invejosa sem ter onde cair morta e não posso comprar a última criação dolce e gabbana que me garantem ir fazer de mim uma estrela
fosse de natal, porra, a estrela, digo


mas uma estrela leva trezentos milhões de anos a orbitar a via láctea e eu não acredito na reencarnação o que me leva a pensar que a sociedade de consumo é uma merda que promete promete e népia


e se for direitinha pró inferno que se foda sempre poupo nas ultra leves da galp



Quarta-feira

 


















as intermitências da morte

desmemória descritiva
em sete andamentos
(para o jorge)
1
ambicionar
o poder vegetal
de respirar
o que não precisas

:do tubérculo inchado
ser-te o cálice que permanece
e te bebe o orvalho
e o tempo
e o tempo

(da nomenclatura: vero,
de verdadeiro)


2
ser da arte
uma via para a extinção


3
dizer das coisas o formato:
único
nos pontos finais
invisível apenas
o nome
saber de cor
a morada
gastar as horas como quem as desconhece
trazer o corpo
num lugar estranho
à própria vida
e ainda assim
persistir

.nem começo
:nem fim

no ventre arredondado
da palavra
amor
as cambiantes nostalgias do som

o infinito.

o infinito e mais dois


4
existir na intermitência
das nossas mortes
:perfilhar-te
e dar-te beijos
que alimentem
-me


5
invejo quem fala
e é ouvido


6
negar um cristo de chumbo
a partir-me os ossos de cada vez
que abocanho o dia

os braços erguidos
os crivos no olhar
abba
abba
e a cada palavra sangrar um minuto
meu

:estar só
absolutamente
tão só

três vezes tão só


7
deitar-me na tua noite
humm gastar do húmido bafo
a tua palavra
eu

ser da medida entre o teu olhar
e a tua mão
o nome
o próprio e mensurável nome
do teu sangue

:sim
e essa ambígua morada para lá do corpo


(as intermitências da morte: título do último livro de saramago)

águas passadas

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da mesma casa

*i'm sick of doubt* *breaking the waves* *let's reinvent the gods* *feast of friends* *i'm a barbie girl* *o baltasar da blimunda. a blimunda do baltasar*

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