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ante mare, undae

Quinta-feira

 






a existência gemelar





com é que tudo começa. esse momento
em que a noite morre. brando e silencioso momento. feito de palavras
que se inventam para celebrar essas horas quase impossíveis. a dois gestos nascem a luz
e as sombras em que a luz se esconde. a existência gemelar.

o que é que eu penso quando penso em ti? não sei. as sílabas nascem. por vezes
separadas. uma aqui. a. outra ali. mor. amor. juntam-se. mas não bastam. o que existe em redor
parece esbater-se. nada mais que tu. que me transbordas. em imagens. em sons. em cheiros. o meu corpo
todo parece abrir-se. de par em par os olhos. por dentro te reconstruo. mãos. braços.
um peito onde repousar o meu cansaço. um olhar terno onde bebo
uma paz. uma paz. e depois como é que tudo começa. era uma vez. sim. para todo o sempre
era uma vez. digo-te querido. doce. doce amor. e o meu ventre estala. no mais secreto de mim
quero-me prenhe. prenhe de ti. essa semente de desejo que cresce. pulsa.


o que é que eu penso quando eu penso em ti? penso-me assim feita
de um pedaço arrancado de ti. num novo nome que trespassa o dia. as horas. a deriva desta loucura
nos mares do mundo. passearemos juntos nessa reconstrução de nós mesmos. era uma vez. e outra. e outra.
na infinitude dos nomes que nos damos. das águas que nos trocamos. nos gestos. nos gestos todos habitados
desse irrecusável tempo.


estou deitada contigo nesta cama que se prolonga no espaço infinito. uma hera de mãos
me envolve desde os pés. pequenas folhas língua em forma de coração me beijam. há minúsculas
gotículas de saliva. como orvalho. brilham sobre o meu corpo. uma brisa constante me sopra
a calidez. o teu bafo. quente. quente. parece que o meu corpo quer acordar de um sono profundo.
uma música estranha se eleva. paira aqui como que marcando o compasso desta anunciada dança.
a mais antiga das músicas. um alaúde. entre os teus braços abandono esta angústia. esta
escassez em forma de fome. de sede. antiga. antiga.

vem. desces ao meu ventre. um arrepio. o prazer. completar a parte que falta da minha própria carne. a tua urgência aí
se desfaz. em beijos. em beijos. pequenos pedaços da tua boca deixam rasto. luminoso. ardente rasto. cometas que aí passeiam. um céu reinventado. fora de horas.
o rosto descansa nos macios declives do meu corpo. e as mãos como raízes. fundo. fundo. plantam
essa humidez que me inunda. em cascatas de espasmos. de gemidos. aperto-te. quero-te aqui.
seres a vénus de mim. para aí renasceres. como uma nova manhã. lenta. lentamente.
mordendo. sorvendo a matéria. o espaço entre ela. pudesse este mundo acabar agora.e restares apenas tu. eu.
em forma de estrela matutina. de brilho único. irrepetível.

para que o tempo acabasse também. e esse momento ficasse desenhado. como um mapa
desse novo céu.
vagueando. vagueando. sem rumo. sem destino.

vem.
tenho a pele a escaldar e a urgência de te olhar. puxo-te para mim. com os lábios quentes te quero
beber. distendo-me sob o teu corpo. abandono-me. dizes querida. querida. e essas palavras me vão
penetrando o pensamento. lenta. lentamente. como se um outro eco quisesse aí nascer.
eu leio-tas na boca. essas palavras. por dentro
do teu corpo que existe só para mim. agora. agora.
uma. outra vez. diz. diz. querida. querida. o coração parece tomar a forma do peito. engrandeço. não consigo
parar este respirar acelerado. este bafo que entorno na tua boca. a língua que enlouquece. os dentes que te procuram a carne.
devorar. devorar. sei lá o quê. não chega. não chega. multiplico-me em braços. em pernas. em lugares secretos
que se desfloram à tua chegada. e quero também eu todos os mistérios do teu corpo. os declives. a curva
do teu peito. o quente aconchego do teu abraço. a força que nos imprimimos como se nos quisessemos
misturar. desfazer. refazer. não há lugar de ti que não seja lugar de mim. na boca. no sexo. na pele.
numa dança frenética. em espasmos lentos. a humidez que se agarra. permanente. tatuagens de bocas
sobre a pele. tatuagens do sexo no sexo. a fluidez do meu corpo no teu corpo.
como se não bastasse. mais. mais. meu deus. meu deus.
é aqui que tu ressuscitas. é aqui mesmo que tu te explicas. nos suspiros
desta cascata de dor. de prazer. de falta. de preenchimento. de falta. de preenchimento.

as mãos. palma com palma agora. maravilha de enlace. a força nos dedos dentro dos dedos. sei lá se são os meus. se são os teus. afundo-me à tua passagem. a pele
arrepiada. um pensamento de violência. sim. mais. mais. depois
não. como se nos olhássemos pela primeira vez tenho febre. mergulho no teu olhar. o tempo pára. e leio. leio
o teu pensamento. a telepatia existe. existe. também eu te quero. com tanta violência que acho mesmo que vou explodir. também eu. misturadas salivas. misturadas línguas. o céu. o meu. o teu. desejaria
engolir-te agora. sorvemo-nos o ar. um do outro. oxigenar-me de ti. e tu de mim. misturados sangues. rasgar o corpo
e dar-te o que não quero que sobre em mim. em ti. és meu. meu próprio corpo.

dentro de mim. abres o caminho. as rotas urgentes da felicidade. imparável viagem. por dentro dos
minutos alongados ao infinito. um infinito em explosões de sons. de águas. chuva. chuva antiga de
estrelas. de cometas. de viajantes do tempo. somos viajantes do tempo. longe. longe.
sinto-me tão longe daqui. este não é o mesmo mundo.
não é. inciática passagem. para outro lado. de nós. de nós.

sim. sim. querido digo. doce doce amor. adorável amor. querido. querido. as palavras não chegam. são pouco.
são as mãos. as mãos do corpo que mais falam. que mais dizem do que eu penso quando penso em ti.
num sussurro de gestos novos. num gemido de água necessária. vem. vem. fica comigo. aqui mesmo. assim.
simplesmente assim.

dentro de mim. olhas-me. o espanto nos olhos. primeiro um brilho. depois um espelho. um
no outro nos descobrimos. no mais profundo do imenso olhar. quero-te assim. desaguando aí com
o mesmo desejo de te dissolveres. cor dos meus olhos. brilho do meu desejo de existir.
o meu corpo se retrai. para te reter. abraço-te. com força. entre o meu e o teu corpo não quero que
sobre nem uma gota. os corpos em desatino. na estranheza de assim mesmo nos cabermos. dentro de mim te sinto pulsar.
como semente. beijas-me os seios. com essa fome de te afundares ainda mais. o sustento. o necessário sustento. eu to dou. e mais. e mais. quero cada pedaço do teu corpo nas minhas mãos. no fundo do meu ventre.
como se fosse possível entrares no sangue. na água do corpo. aí te afogares. aí.
no encaixe perfeito das minhas ancas. no lago que aí te espera.
os teus. os meus murmúrios. uma loucura em forma de corpo. palavras. beijos. línguas. fogo. fogo intenso.

o teu peso sobre mim. toda a tua força dentro de mim. não posso. não posso mais. há tanto de mim aí na tua carne
que acho mesmo que deixei de existir. mudei-me em ti.
na expansão. na retracção. no eco do eterno retorno. sinto-o sinto-o.
esse fogo tão tão antigo. só nós dois. nada mais importa. nada mais existe. agora a eternidade. agora.
e o que é que eu penso quando estás em mim. penso estou prenhe. desse fogo. dessas lágrimas de fogo
que me inundam.
pequenas
gotas escaldantes do teu orvalho saliva. pequenas gotas escaldantes do teu orvalho sémen. a brancura
de anjos. me desce. me procura. me encontra.
e é essa mesma brancura que me eleva esta matéria do corpo para lá
de mim. para lá de ti. outra carne. de nós. de nós. o filho do espanto. de nos podermos
encontrar na dimensão superior. mais para lá do sétimo céu. do sétimo dia. não descansaremos ainda.

sangras. eu também. eu também. porque é assim que tem que ser. com toda a violência do
amor rasgam-se os corpos. e um rio de veludo desce-nos pelas pernas. rosas. rosas. mistérios
flor. mistérios rubros de flor. anunciadas primaveras. o perfume de paixão irremediável que cresce
lenta. lentamente. como se a natureza nos quisesse brindar com essa maravilha. eu sei que sim.
a natureza clandestina que habita do outro lado de nós. do lado em que os sonhos
despertam e tomam conta de nós. e a realidade em forma de ramos. folhas. línguas de fogo linguagens
secretas. ninguém mais conhece esse código só nosso. ninguém mais.


o suor a saliva o sangue deixa um aroma doce nos nossos corpos. como uma nuvem inebriante se evola.
e os teus olhos
nos meus. perdem-se como súplica. sei lá de quê. o amor também é essa tristeza alegre. essas lágrimas
felizes que assomam. e o balbuciar incoerente que vem depois. aos olhos. à boca. e dizer outra vez. ainda outra.
como se nada mais fosse tão grande. tão importante. tão urgente. digo amo-te. digo doce. doce amor. num murmúrio
junto ao teu rosto. que cai desamparado entre os meus seios. quero dar-te
todas as carícias que existem. e mais. os veludos. rubros. macios. da ternura. a imensa ternura. e deixar-te dormir
assim. dentro de mim. como semente esquecida na terra.


podia acabar tudo agora, morrermos assim. um no outro. chegarem para nos levar e não ser
possível separar o nosso abraço. entrarmos juntos
na eternidade. no mais perfeito dos corpos.
a flor do tempo.


(falo para ti. sabes.)





águas passadas

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