ante mare, undae
Terça-feira
dicionário bilingue em dez chamamentos
volume primeiro: da profanação1. a de adorar
é na profanação do corpo que as tuas mãos mais se assemelham a uma fé por inventar. seres capaz do altíssimo gesto que coloca dois seios num altar e que faz de um homem um homem apenas. ir crescendo-te o mistério dessa senhora linda e nua e tua sob as mãos, sob a boca: a linguagem e os dentes - a memória da mais antiga mordedura. eis como tudo é bom. muito bom.2. b de balsamita
aliviar-te da água que do corpo nasce. devolvê-la à origem. não beijar em vão o aroma apimentado do teu corpo. não desperdiçar uma única gota do teu desejo. pronunciar cada gosto de ti como uma sentença de vida. és o meu senhor do alimento e calarei na minha boca todas as palavras sem cheiro de ti: o pão de cada dia refaz-se nesta língua. minha. tua. papa primordial.3. c de colostrohumedeceres-te de todas as verdades: o meu sexo, ou melhor a minha rata ou melhor a minha cona traz no cheiro o teu gosto: ao princípio metes os teus dedos aí nas circunvoluções anteriores do meu desejo. é já dia e é então que nascem todos os significados: deixas que a palavra cona, a palavra rata e a prosaica palavra sexo escorram entre a minha e a tua língua. líquida, a palavra de leite, líquida, a palavra cona e não saberás ainda por completo as minhas coxas: a tua boca recria em mim multiplicados corpos. povoaremos assim o mundo com os filhos desse gosto: olhos, mãos, línguas que atravessam os séculos nascem do abismo entre as minhas coxas: é sábado. por fim nos santificamos. 4. d de desentranhadosorfãos de mãe, orfãos de pai: a memória do nome dá-se-nos em tecituras que entrelaçam o teu no meu tempo: as auréolas dos meus seios coroam-te os dias e tu desenhas-me em cada uma das linhas das tuas mãos. o nosso é um corpo sudário: incorruptível mãe, incorruptível pai, um do outro nos parimos. a marca amada. a cama marcada.
desentranhada pele da pele. desentranhados, poro a poro.5. e de estomentarda inflorescência do teu sexo nascem todos os momentos que em mim se fazem lisuras. o meu ventre recolhe esse lençol alvo e ao morreres, nasces em mim. separarmos o dia da noite para tecermos a longa teia dos corpos.
rotunda a língua em que se dizem os meus e os teus dedos, os nós de nós em borbotões. ai.6. f de fodertrair-te com todas as palavras profanadas: foder ou comer tudo o que de ti vem, engolir o teu sémen e ao cuspir-te seres outro. olho para ti e cubro-te das jóias mais luzentes em que a minha língua se dá: puta és, puta. ou amante.
por entre as pernas o nome. por entre as pernas, santificado sejas.7. g de grifarbichos. bichos. como os bichos nos fodemos. acontece-nos gritar uma só palavra. acontece-nos a nuca os olhos na nuca os dentes na nuca as mãos que arrepelam os cabelos na nuca as unhas cravadas na nuca.
as minhas mãos em sacões pelo teu corpo todo. olho-te. por detrás dos meus olhos estás por detrás dos meus olhos. os sentidos saqueados pela respiração acelerada que me desliza pelas costas.
engatinho e tu vens-te entre as minhas nádegas. 8. h de homem no interior da minha carne o exterior da tua carne. a pele vai e vem num testemunho de maré. as ondas antes do mar. ante o mar.aqui, nesta península corpomeu se ergue o promontórioteu. a terra mais próxima já à vista: navegarei teu sangue por dentro e exalarei teu nome: depois, ágrafos, nos despiremos de todas as falsas epopeias. a poesia é pura deriva. 9. I de invençãosentar-me em ti como à mesa. comer do pão. beber do vinho. a ceia dos sentidos consumida no altar da noite. entras em mim e a digestão começa na boca. suave o vinho, espumoso, escorre-me dos lábios e a palavra pão ganha a humidez brilhante que a incorpora.
invejo o teu sexo que se ergue como luzeiro na noite. invejo-te o líquido que dele mana como vinho e a espada romba que separa o irmão da irmã, a mãe do filho e o meu do teu corpo e vai fendendo o tempo acima, abaixo, dentro, fora, dentro, fora. acima como abaixo. dentro como fora. foder-te também eu.
era o que mais queria.10. j de jamaisprincipalmente quando acreditas é que o tempo é de saber. depois não. e o silêncio cai como frio e os corpos dão-se na secreta busca do sentido. tenho uma palavra encravada na goela e a goela inflamada como uma vulva. no mais profundo de mim habita uma fúria em forma de dentes, mãos e sangue. o sexo todo inchado como uma verdade. primeiro acreditamos e depois nos fodemos.
assim seja.
lavo três vezes a boca antes de te gritar. deus dá-se em chamamentos. deus é ágrafo.
deus é nós.
dicionário primeiro segundo o henrique
blimunda e baltasar, invocando.
Quinta-feira

*o que me acontece cai-me nos dias*
um homem vai no seu corpoe subitamente cai
Sei que o homem lavava os cabelos como se fossem longosPorque tinha uma mulher no pensamentoSei que os lavava como se os contasseuma mulher cresce no pensamento de um homemcomo se as suas raízes fossem teimosas mãosde afagar a tristeza. nasce um rotundo ventreonde antes existia a planura dos dias. ela diznão há no mundooutro lugar de mim onde queira estar. és a casa. todaa casa. e o homem ri no pensamento que tem da mulher. comoquem sabe que leva por dentro dos olhosuma mulher que pode habitar um homem e fazê-lo seusem que forana cor dos seus olhosoutra cor denuncie esse segredouma mulher pode emprestar o seu ser mulhera um homem e fazê-lo seu ser homemenquantoforaapenas um corposeja visível. as gentes passam e dizemeste homemesta mulhernão tem nadaabsolutamente nadade diferente etodaviaeles caminham por dentro um do outrolevelevementecom medo de acordar. dorme um amanteno coração de um amante. o silêncio todo do mundonão chega para os embalar. há outro.esse que ergue uma casa de paredes finase segredos. uma mulherenroscada no pensamento de um homemum homem deitado no pensamento de uma mulherpode ser uma casa. a casa.uma mulher pode ter um homem por dentroe acariciar nos seios essa boca que deixa rastoluminosocomo se toda a luz do mundodelanascesse no lugar que a bocadeleocupaquando lhe beija os seiosuma mulher pode ter um homem tão profundamentepor dentroque quando rié o próprio deus que ri com elapartilhando esse momento do eterno regressoa alegria é o secreto pulsar de um homemde uma mulheruma mulher tem um homem por dentroaninhado entre a coxasnum lago secreto onde à noitecriaturas sem nome vêm lavar-seolhando esse espelho de sifalam palavras indizíveisimpalpáveis e longas como a respiraçãode uma mulher que tem um homem por dentronos olhos de uma mulher que tem nos olhos um homemas meninas constroem casinhas de brincare inventam nomes para os filhos que hão-de terdesse homem que trazem por dentroquando um homem habita por dentro de uma mulherque habita por dentro de um homemnão há explicação para o mundoapenas a luza líquida luz primeirapode falar dessa casa das casassei que uma mulher pode escorrercomo a cal viva do corpo de um homemsei que um homem pode enterrar no fundo de uma mulhero seu segredo todo de homeme deixar-se dissolverna água mais necessária que os dois se dãoesse é o homem que está por dentro de uma mulhero corpo aberto em mãos de ver por dentroos olhos molhados de tanto seressa é a mulher que está por dentro de um homemo corpo de concâvas palavrasque vão secandotodastodas as lágrimastodastodas as águas estranhas ao amor
os olhos molhados de um homemsão a convexa realidade em que uma mulher se explicaSei que os enxugava com a luz da mulherCom os seus olhos muito claros voltados para o centroDo amor, na operação poderosaDo amorSei que cortava os cabelos para procurá-laSei que a mulher ia perdendo os vestidos cortadosEra um homem imaginado no coração da mulher que lavavaO cabelo no seu sangueNa água correntede todas as águas que correm entre um homem e uma mulhernão há outra água mais correnteque a que anela os dedos de umnos dedos do outroos corpos moldamentãoum longo espantoso duplo óe recolhem em sios nós de umos nós de outro. não há nada mais incrívelque inventar um infinitonósfora de horasfora de horaseu sei de um alfabeto prolongadoem que cada letra tem um significado outrocada letra funda uma palavra sócertoé que ela existe e é urgenteEra um homem inclinado como o pescador nas margens para ouvirE a mulher cantava para o homem respirarum homem pescador de siestá por dentro de uma mulhersem que ocupe outro espaço que o corpo tododelasobra apenas um canto que respira na mulheresse homem que também nelaestá por dentro do espaçoque o seu corpo ocuparespirando-se-lhe o mesmo e todo outro arum homem vai no seu corpo com uma mulherpor dentroque vai no seu corpo com um homem por dentroe subitamenteamboscaemno céu. como os pássaros do zé gomes ferreira.morrem-se.nascendo-se. quando um homem nasce numa mulhernasce uma mulher num homem.e é bom. muito bom. digo.mas a nomeaçãoé toda outra coisa. só deles.quando depois descansam.e tudo era silêncio e lassidão, quando desceram à íntima cumplicidade do sono. al berto Daniel Faria *joão barrento* marc chagall, the birthdayblimunda e baltasar. renomeando. assim seja.
( dia um de setembro. daqui a dias o meu aniversário. penso-te. e de cada vez que te penso, nasce em mim o homem que tu és e, muito provavelmente, de cada vez que te penso nasce em ti a mulher que eu sou. renomeados. porque o amor é toda outra coisa. porque eu sei.)
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da mesma casa
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i'm sick of doubt*
*
breaking the waves*
*
let's reinvent the gods*
*
feast of friends*
*
i'm a barbie girl*
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o baltasar da blimunda.
a blimunda do baltasar*
