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ante mare, undae

Sábado

 
















5. eu sei, ó ana






os deuses deveriam predestinar-me outras tarefas, outros percursos: a mendicidade, o nomadismo, a cegueira, a transumância ou o ascetismo.






quando a ana chegava dizia vamos brincar às casinhas. eu chorava uma lágrima muito pequenina e nem sabia porquê. casinhas de brincar. os corpos são casinhas de brincar. e eu, ó ana, às vezes só me apetecia era ficar assim, abraçada a ti, muito muito muito, e muito muito muito tempo. o tempo todo até passar.o corpo dói. o desejo no corpo dói. o corpo todo a doer.
e eu sabia lá o que me doía. só queria que passasse. o tempo todo só quero que passe.


agora está calor. um dia azul de azul. uma aragem que vem mansa do lado do mar e o monte da lua em verde de verde. deveria ter amanhecido contentinha. mas não. amanheci toda sozinha com todo o corpo sozinho.

antes mesmo de acordar senti esta coisa estranha a revolver-me as entranhas. assim uma espécie de coisa que se dá em voltas e voltas. e ao abrir os olhos deitei a mão a mim mesma. cá estou. de novo. e dói.

um percurso pela noite funda esse bicho mar de tentáculos e olhos grandes. a noite olha-me e desnuda-me. amanheço com a vontade toda de um café e dois ou três cigarros que me lavem da boca este sabor a transumância. por onde andei. por onde me dei o corpo nestas horas em que o silêncio todo caiu entre mim e ti. por onde andaram estas palavras que me te dou. por onde andaram os meus olhos. ah, a cegueira. existe isso da cegueira, ó ana. ou é mais uma espécie de nomadismo que nos encerra todas as palavras neste corpo e nos dá esta fome de não ver. não acordar. não parar aqui aí para te ver. a verdade da pressa do corpo todo de pressa. da boca toda de pressa.

água vem
água vai. água na boca. água nos olhos. água.

*** não adorarás outro deus que o deus da cegueira. não adorarás outro deus que o deus da mudez. não adorarás. não.

dormi a pensar em ti. verdade. agarrada à almofada-tábua-salvadora-de-náufrago da noite. verdade. a noite pode ser um mar de imenso silêncio em que as palavras nos parecem as asas de um anjo luminoso a vogar ao nosso lado. anjo da guarda
anjo da guarda
minha companhia
guarda a minha verdade
noite
noite e dia. a transumância da alma. a noite é um mar
de água branca azulada. por aí me caminho. anjo de mim mesma?


olho. e ainda assim não vejo. porque
muitas são as vezes que não sabemos o que sabemos

a luz branca azulada
a luz branca
a luz pelos olhos adentro a puxar-me

está bem eu conto.




eu escrevo devorando os limites de mim mesma como um bicho qualquer que fala a língua dos homens. na conformidade absoluta de uma errância a quatro patas. lambo-me. passo a aspereza da minha língua por sobre todas a feridas abertas. no sexo acossado pelo desejo adivinhado na boca. húmido sexo. a morte deseja-me. eu sei. sinto o seu odor de covil no próprio corpo. está tanto frio aqui. o dia é uma impossível tundra de memórias. vagueio por cá esgravatando-me um nome. a improvável identidade que habita nas minhas longas salivações. sei. na transumância de mim sei. da cabeça aos pés suo esta certeza animal. emerge. violenta. com o silêncio que antecede as coisas importantes. escorro-me com a urgência de ser. escrevo desta animalidade. desta errância de dentes afiados na solidão. de língua dissolvendo o som. de garras apertando a humidez pútrida da palavra. a palavra que escrevo como única verdade. não adorarás outra palavra que a palavra que escreves como verdade de ti mesma.

os limites inconfessáveis da minha própria realidade. toda a vida a gente apodrece lentamente à sombra de um nome. nomear. acontecer ao nomear. transumância do ser. absoluta fuga ao apodrecimento da palavra nome em mim.
alimento-me desta putrefacção. numa autofagia que me purga de membros, de olhos. de mãos. a inutilidade da matéria exterior do corpo. e vou parindo. o frémito. o mesmo que já me penetrou. é uma geleia transparente. espessa. branco desespero de homens que me escalaram o corpo. o sarro das suas noites colado à minha alma. aqui estou. lambendo essas fecundações do espanto. vomito filhos da fome no absurdo dos dias. abismos crianças que agora me reclamam. indizíveis abismos. abro-me a estas parições com a urgência de permanecer. deste lado. tentáculos umbilicais encravados na deriva do tempo. vísceras de um nomadismo orgânico. lambo-me.

lambo essa secreção
de mim mesma. o espanto de me abrir toda em cavernas. o segredo concâvo de placentas acastanhadas. de veias em que a verdade me escorre e menstrua. orgasmos de sangue e carne. devoro-me com sofreguidão. há qualquer coisa outra que habita comigo. uma sombra ávida que rasteja em mim mesma. crescendo no que restou desses longos repastos. um retorno da carne à própria carne. quanta verdade há neste retorno. na urgência de o conhecer. sou bicho.

bicho acossado por esta fome constante. bicho vagabundo
na desordem do acontecer. reclamo-me dessa desordem. tentacular. predestino de deus ex machina arquitectado na solidão. olho-me. num vai e vem de enforcado a quem esqueceram. o corpo me pende. o sexo erecto como declaração da urgência. a boca num esgar de patas quase tocando o chão. um fio me desce. a baba do regresso. branca. branca luz, branco sémen, branco dos olhos.

*** quando te foder na hora mais tardia e arrebatar de ti essa luz branca
quero o branco dos teus olhos olhando para dentro
quero da tua boca um esgar
como patas tocando o chão
a terra
o duro da terra
quero chover-nos em águas diluvianas
sempre e a cada vez derradeiras
sempre e a cada vez assim como no princípio
e olhar
roubar
e dizer
é bom

eu sei
eu sei

baloiçar. baloiçar. baloiçar
num vai e vem num vai e vem
ao vento ao tempo
estandartes contra o deus
que se reclama da eternidade
como templos corpos nus erguidos entre as mãos e os olhos
aqui
onde o chão continua como sempre
duro
e como sempre horizontal





e o amor, perguntas tu. pois.



( entregar a carne à carne. permanecer. de olhos
esbugalhados permanecer no dia... e me devolver limpa de ossos.)





( para o aly, porque sim )( para o afonso )( para a ana querida )



entrada do al berto ; desenho: http://www.forma-fashion.ru/hw.html

Quinta-feira

 























4. desenxovalhadinha, benza-a deus




** ao corpo de ser mulher
está-me o corpo habituado **


a gente diz coisas. a gente vem e diz coisas. por exemplo coisas que estão a mais no correr dos dias. coisas importantes. por alguma razão que me escapa eu venho e digo, a-m-o-t-e. como dizia a ana quando chegava de tranças empertigadas e cara de pressa. eu digo.
porque porra penso que hoje precisas de ouvir-me dizer isto.
sabes?

eu sei. exactamente porque no correr dos dias é importante que saibas que hoje, precisamente hoje, comecei a morrer. a vida é má literatura. e hoje eu até poderia chegar e dizer: a vida é má literatura e as coisas aqui repetem-se numa sucessão infindável de coisas que se repetem. nada de novo sob o sol. nada de novo. a gente despe uma palavra. veste outra. logo de seguida a palavra roupa é igual. e não temos verdadeiramente nada para dizer. tudo já foi dito. tudo.

ou talvez não. digo, prefiro a clandestinidade da nudez.
sou prolixa na nudez. dizes-me prolixa e não consigo deixar de pensar que essa é a face oculta da minha palavra. e como me duvidasse do significado vou e escavo. -me.

estou a dormir e subitamente acordo. uma apneia e um caroço na mama. digo, tenho uma mão dormente. é de dormir sempre assim com a mão por baixo. a mão no sexo. estou na cama contigo. não há dúvida disso. olho para o lado e lá estás tu. dormes todo enrolado no lençol. roubas-me. o lençol e o sono. queria acordar-te e dizer, uma apneia e um caroço na mama. não estava lá ontem. a apneia, perguntas, faz de conta que se pode ter uma de véspera. não. a mama com um caroço que dói e uma ideia de caroço na mama que dói. ainda ontem me chupaste a mama. foi mais assim com a língua em redor da rosácea mamilo. e a língua muito devagarzinho na ponta do mamilo.
eu fico sempre espantada. este fascínio pelas mamas. dói.
eu sei. também a mim me dói. mas a mim dói-me porque tenho um caroço. este fascínio por tudo o que traz os olhos muito abertos uma língua a roçar as franjas da noite e depois

não posso dizer dizer.

a gente está a dormir e de repente vem uma apneia e um caroço na mama e pronto. acordamos. os olhos muito abertos o ar a fugir por entre os dedos. o lençol. é branco. branco. não se pode dizer que a vida é quando vem uma apneia. não. nem sequer nos lembramos da vida quando ontem não tinhamos um caroço na mama. um caroço. e se for de nêspera. que lindo. que lindo. se for de nêspera vou cuspi-lo em cima da cabeça de alguém que passe por aqui cheio de pressa. mas de pressa não importante. a minha pressa é importante. eu sei eu sei. a minha também. é importante ter pressa. e apneias. pois é. quando o ar falta a gente sabe que o ar falta.

quando olho os olhos dos homens com pressa eu penso que raio de coisa isso de ser homem. caminhar sempre com pressa e sempre com uma mulher com pressa entre as pernas. não é nada. é, é.

quero caminhar. com uma mulher com pressa entre as pernas. não queres nada.

estou deitada na cama e tu estás deitado na cama mesmo aí. digo, quero ter um pénis e rasgar-te. penetrar-te como tu me penetras. inveja. pois. de pénis. pois. isso é uma teoria não é. é. compramos um vibrador. mas não é o mesmo. pois não. queria mesmo era sentir o que é isso de andar com um homem entre as pernas. mas tu andas. não ando não. andas, andas.

no outro corpo. é quente, dizes. só isso. não. achas que o resto das mulheres se habituam ao corpo de ser mulher. como os homens se habituam ao corpo de ser homem, perguntas. acho que não. quando crescemos, as mulheres, dizem-nos para calar. uma mulher mulher tem a submissão toda dos olhos das cadelas quando os cães as montam.
eu e ana costumávamos espreitar a nossa cadela a ser montada pelo cão da vizinha. a vizinha também espreitava.

quanto mais elas ganem mais eles dizem toma, toma, os homens gostam de dizer toma. e as mulheres mulheres dizem me dá. me dá. ou não.

quando os cães ficam pegados a gente atira-lhes água para cima. então a cadela olha-nos com uns olhos todos de cadela e nós dizemos, é mesmo uma cadela. o cão fica com tesão para foder até uma perna de alguém. às vezes era a da ana. e eu ria. muito.

fingimos. fingimos todos. chiu, essas coisas não se dizem.

o pai sentado na cadeira de baloiço do meu quarto tentando iniciar uma conversa. sabes, não deves entregar tudo logo à primeira vez. então quando porra é que entrego tudo, eu penso. sim pai. não deves dizer tudo logo à primeira vez. sim pai.


não entregar tudo logo à primeira. não dizer tudo logo à primeira. não adorarás outro deus. não cobiçarás a mulher do próximo. não.

porque é que não fodemos, perguntei eu, depois, já tinhas ido embora e eu sem saldo na porra do telemóvel. usei o teu telefone. o de casa casa. e tu, teria sido o mais natural, respondes. se não fodemos o que é que andamos aqui a fazer. a ter profissões. a fazer coisas sem ser foder. por exemplo a fazer vidas. as vidas não se fazem. é mais constróiem-se. muitas fazem-se. a pulso. ah, pois é. o que é que andamos aqui a fazer. a dizer coisas devagarzinho. tão devagarzinho que até morremos a dizê-las. por exemplo amo-te muito meu amor. pois. faz de conta que és uma amante e agora te quero esconder aqui dentro desta casa casa e nem podes ir à janela. ficas aqui a tecer-me uma casa casa. com janelas janelas. e filhos filhos. depois eu chego. tu estás cá. mesmo que não estivesses antes. e eu digo amo-te muito meu amor. e fico colado a ti como os cães com as cadelas. e tu ganes muito. e a vizinha do andar de baixo bate com o cabo da vassoura no tecto, aqui há quem queira dormir, ó senhores. chiu. foder não é construir. a gente casa e pronto. assim não fode mais o juízo a nenhuma noite nem fode mais o dia a nenhum cabo de vassoira vassoirinha. mas

as pessoas estão sempre à espera para roubar uma história de amantes que se dão em casas casas. e depois, muito em silêncio silêncio vão e masturbam-se. dos homens diz-se batem uma. punheta claro. não pulseta. porque não é uma vida. é assim mais uma morte morte. eu conheci um que não conseguia um minuto eterno sem bater uma punheta. estava muito habituado ao corpo de homem e então dizia toma, toma, mas eu a olhar a olhar e ele toma, toma. para si. depois abria muito os olhos. e eu estava lá. a mão dele era uma pequena vagina. muito apertadiiiiiinha. e a mulher era uma cadela. espreitada.

e eu, deitamos-lhes água por cima, ó ana. não. coitadinhos.

não se pode dizer tudo à primeira. pois não. não se pode entregar tudo à primeira. o corpo é um templo. pois é. e tens de manter o corpo puro para a alma não te fugir. fugir para onde. chiu.

se eu disser que o meu corpo templo nu ocupa o espaço todo desta casa casa o que é que vais fazer com esta oração. nada, dizes, nada, não podes dizer essas coisas e muito menos andar por aí a dizer que andas nua e és uma santa que anda nua. então porquê. porque não se entrega tudo à primeira. não se diz tudo à primeira.
então quando. não sei. mas não é à primeira.

os anjos não têm sexo. os anjos não fazem sexo. os anjos estão azuis muito azuis naquele lugar onde deus de dá em nasceres do sol e pores do sol muito amareeeeeeelos e muuuuiiiito laranjas. e depois cai assim em cima da terra. achas que os raios do deus são assim pedaços de anjos a foderem o dia e a terra e a noite. não. é só o sol. a ir e a vir. a ir e a vir. então nada aqui é novo. pois não. não há nada de novo aqui.

eu até posso pensar que a vida espreita nos intervalos da morte. e depois os olhos ficam muito abertos e ama-se, pode amar-se até o zé da esquina. quando morremos já podemos amar e dizer tudo à primeira. ninguém nos ouve, digo, pois é por isso, dizes. metes-me medo. eu sei. e porque é que me metes medo, perguntas. porque digo à primeira e entrego à primeira o que tu demoras uma morte para dizer e para entregar. cala-te.




uma mulher habitua-se ao corpo de mulher com a mesma dificuldade com que se habitua um homem a um corpo de homem. eu sempre me tive assim. com a dificuldade de me encerrar em palavras tão iguais quanto mulher. ou em palavras tão iguais quanto homem.

fico mais longe agora que é verão e todos partem. de férias da vida. o calor dissolve a memória e quando nos regressamos é um exercício de paciência cair nos dias. recuperar o rosto. a minha memória costuma ser um ninho de bichos que róiem nas minhas entranhas. dedicam-se, os bichos, a abrir túneis por entre os dias que vou acumulando com a paciência toda de um coleccionador.

por exemplo, tu dizias muito amo-te, e acrescentavas e isso não é tudo, como uma pergunta a exigir a resposta pronta. pois. como o pai. como a mãe. o nosso amor é inabalável. infindo. diziam. ou melhor não diziam mas sentavam-se à sombra da nespereira, eu deitada no ramo mais alto tentando passar por mais um ramo mais alto. cá em baixo eles. o que é que lhe vamos dizer. mete-me medo, ela, dizia a mãe. a mim também, pensava o pai. e eu a assobiar casa comigo marta, e cá em baixo o pai. a mãe. a mãe: o amor diz-se em palavras indizíveis. cala fundo. o que é isso calar fundo. calar fundo é não saber dizer. ah, mas eu sei.
cala-te.

ouvia sempre essas conversas, e agora o que lhe vamos dizer. nada. ela sabe que.

sempre as perguntas. sempre as respostas com finais cortados. como se subitamente acabasse o espaço onde inscrever os dias as noites a morte entre eles.

eu cresci com esses espaços vazios entre. masturbava-me muito. com três dedos três enfiados pela noite adentro a tentar entender porque é que não se diz. a morte habita o corpo dentro. e três dedos roubam-lhe um minuto. eterno minuto. benza-te deus, cachopa, e que pensas para convocar esse minuto. mamas. penso em mamas. penso em pénis, inveja, entras-me muito fundo, ai, e tu dizias amo-te. e esperavas que eu entendesse. mas lentamente a construção do meu corpo era mais um muro alto alto alto. paredes brancas. do lado de cá, amo-te. do lado de lá, que porra é isto do amo-te, amor, casinhas de não brincar, filhos que não cheiram como a minha boneca luisinha, dias e dias que correm correm correm. a gente empareda-se. a gente empareda-se e tem cabides por toda a parte. aqui pendura um dia. ali a tua camisa cheira a ti e dá-me cá uma vontade de te foder. chiu. as mulheres não fodem. são fodidas. ah, então é assim. não. mas não podes dizer tudo logo à primeira. então quando, porra, então quando. quando morreres de olhos muito abertos. mas ninguém ouve, tu não ouves. pois não.


e o zé da esquina, perguntava eu, também posso amar o zé da esquina. o zé da esquina não, porque não o conheces. conheço conheço. ah, mas é só de vista. então e nós. nós é diferente. eu entro em ti e faço-te o amor. dou-te o amor, deixo-te o amor. benza-te deus. num casal, um santifica o outro. tu santificas-me de todas as vezes que me fodes e dizes toma, toma, lembras-me sempre as vozes do canal de sexta à meia noite. eles têm sempre sexos grandes grandes e muito lisinhos. e entram nelas e dizem toma, toma. é para as santificarem. água benta. então o sémen é água benta. e elas. elas gemem e dizem, me dá, vá. oh que porra elas também calam. deviam cerrar era um punho e enfiá-lo por ele adentro até ele dizer me dá vá, e ela toma, toma. assim é que era a santificação. um minuto. eterno minuto em que vês a face desse a quem chamam deus. e se deus for uma mulher. pergunta mais igual. era tudo igual.

a tua camisa ainda está por aqui. cheira a ti. e dá-me cá uma vontade de te foder até te saltarem os olhos.

(chiu, isso é tesão do calor. cadela.)





depois eu fui e morri-me. desenxovalhadinha, benza-a deus, dizia a velha ao passar por mim. jovem. tão jovem. esse escândalo de morte jovem. tão jovem. com o rosto parado num dia. caio e abro muito os olhos. e agora, já posso amar o zé da esquina?

( ela sabe que. )

coloco o mac no colo. ponho-o para o lado. deito-me a pensar. merda que o que me apetece mesmo é deixar-me vir no pensamento. é sempre cedo e está um calor de moscas.




** natércia freire

Sábado

 

** metamorfose ambulante **

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Prefiro ser essa metamorfose ambulante
Prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes
Prefiro ser essa metamorfose ambulante

de(ambular) por aí e olhar as ruas vazias de gentes e as paredes nuas onde o amor se inscreve em letras apressadas o corpo pede o descanso de outro corpo a mão a concha de outra mão sms baby sms um abraço em braços de invisíveis dedos pele teclada send now lonjura save as draft escorrer nestas letras que a alma acabará por se fixar por aí numa qualquer parede de uma qualquer cidade de um qualquer mundo pode até ser este aqui. tag. sombra. tag. sombra. o meu corpo desenha-se na curva do teu ombro tag amos tag amos o meu corpo é technicolor corpo teu sabores mixados copy edit paste a imposição de ter nascido no dia dezassete de agosto de mil novecentos e setenta e sete
sei a imposição a transgressão com' baby let's bomb uma sky line giraffiti em qualquer mansarda em qualquer castelo desses mesmo podem ser de areia escorro-me pelos dedos alojada num servidor marado marado stop tag samo amos ho nel l'anima uma insana ave de voo rasante asas de cristal líquido veias de font verdana size. normal size. ponto. tag samo. amos. sombra. a imposição de ter nascido nesse dia em que a guerra era negrito era negrito carrego às costas a imposição de ter nascido ponto black is beautiful white fresh colgate transgressão o amor é em stickers demodé span span strong stick to me post it


Chorus
I just wanna love you for the rest of my life, (obie trice)
Wanna hold you in the morning, (I luv’a burnish the monies, the bunnies)
Wanna hold you in the night.. (I just wanna hold you

I just wanna love you for the rest of my life, (obie trice)
Wanna hold you in the morning, (I just wanna hold you)
Wanna hold you in the night..



agora vai que eu grito assim em letras arrancadas às tripas onde foi merda onde foi que esta merda se escreveu que devia ser assim quem foi o cabrão que usou o meu tag quem foi wanna fly away e estas asas de chumbo a intoxicar-me os pulmões desfazem-se em sctoch brite demasiado uso demasiado fumo e volatilizo-me voo rasante garra presa tag fónix uma ardência sem format reset lost in transladação e zoom japonese girls like pucca dolls e eu aperto estas asas em gaze amor em dedinhos do pé baby não é o fim do mundo é só mais um bocadinho de terra o sol ofusca-me foto foto sensível stop tag ki.mona. tag fotopucca pouco sabe-me a pouco sabe-me a pouco



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digo tag sombra e bombo multicolor o meu corpo todo nesta parede nua nesta imensa wall baby o meu corpo moldado entre os teus braços back to back daqui desta terra até aí nessa vida tão tão grande neste mundo os olhos são screens savers de pedras onde o céu descansa e se marca numa outra caligrafia vês a crew está toda cá e agora let´s party amo-te e rasgo com uma linha esta cal viva foda-se que é interdito foda-se que é interdito

Chorus 2x

Dum, tahh-dum.. ta-dah-da
Dum, tahh-dum.. ta-dah-da
Dum, tahh-dum.. ta-dah-da
Dum, tahh-dum.. ta-dah-da
Dum, tahh-dum.. ta-dah-da
Dum, tahh-dum.. ta-dah-da
Dum, tahh-dum.. ta-dah-da
Dum, tahh-dum.. ta-dah-da
Dum..

porra tanta gente porra tanta gente o metro em quilómetros a linha entupida ic dezanove em carris de ferro alumínio e plástico tenho os olhos prenhes de tanta loja de conveniência after all um euro vale mais que duzentos paus e a gente esburaca os bolsos para comprar essa identity card esse passe mas try later server is busy deus em sms de fim de mundo o people tá todo louco por um lugar na crowd you2 eu não porra baby eu nÃO

a gente vai mas vagabundear por aí dormir num qualquer buraco cobertor de mim cobertor de ti foder esta verdade toda a noite toda fazer do corpo uma entrada directa para o jardim das delícias quero lá saber baby se os gajos vêm aí a gente está mimetizada na parede amo-te em letras de pingos escorridos e sangue e suor e tanta tanta saliva que troco por todas latas de todas as cores do mundo stop tag gemelar eco samo amos vou morrer com esta overdose de beleza vou afogar-me nesta água dos teus olhos bombar bombar o teu corpo em ar soprado difícil respirar difícil um heavens piece vamos mas é trepar por esta escada vai dar lá acima águas furtadas stop éden tag paradise ain't it just beautiful back to back writing clandestine tanger
tangerina é também o cheiro dos jardins de verão e do sémen colando os corpos de adolescentes em fúria descobrir é uma revolução. sempre

[doctor] scalpel
[nurse] here
[doctor] sponge
[nurse] here
[doctor] wait.. he’s convulsing, he’s convulsing!
[nurse] ah!
[doctor] we’re gonna have to shock him!
[nurse] oh my! oh my god!
[doctor] we’re gonna have to shock him!
[nurse] oh my god!


godspeed e godfather e tanta tanta gente em god i rely shame on you shock xoque username necessário quadrículas em desmaiada pequenez tê um tê dois o sub(ser)urbano subservi(v)ente eu quero é doses de massive attack do disney channel em banda larga e acabar com esta merda toda em questões de nanosegundos épá merda perdi-me nos links back to back em templates rosa xoquing pucca girl likes gucci boy ain't they sweet merda que vómito súbito em harmonets engolidos à pressa o amor é uma fodida camisa de forças o amor é uma fodida camisa de forças e eu práqui voando voando raso este ninho de cucos em madrugadas iguais às madrugadas iguais onde foi que perdi a porra do link pandora plumcake noise e tanta tanta gente o barulho ensurdecedor destes caps das latas entrexoxadas choca-me um ovo um de serpente para comer esse pomo esse teu fruto mais recôndito esse fruto doce doce dos teus lábios a redenção à mão ona. tag nismo a gente masturba-se três dedos de chat e raios que me vim raios que me vim precoce(ira) nem e(i)ra nem (a)beira há qualquer coisa de sétimo céu neste prédio de okupas sem elevador e já te disse o meu name baby não cabe no teu name tranfuso-me me em baltasares blimundas a minha natureza é mesmo do mal em novos voos sobre catedrais e pocilgas a vida é larga e eu quero respirar o mesmo ar não a vaca nem o badalo o meu corpo é visível delarte na extensa madrugada tenho as mãos vazias e há tanto tanto noise for mind que acho mesmo que as coisas que escrevo são apenas uma forma de fazer conversa de xaxa e estar fora do mundo longe da multidão arranjar tempo para (re)criar as coisas de universos desfeitos e mundos de peters em busca do porra do pan e eu tenho uma criança por nascer na minha alma acho mesmo que vou é comer as torrradas e provar o talento da mediocridade arranjar tempo para fazer um pé de meia e deambular por aí feita street guru pintando pão na boca das paredes e inventando outro lado para os espelhos e para os labirintos e gritar merda merda fodasse dois esses são sempre melhor que um hífen um hímen separando os dias das noites fly baby fly away with me
vamos bombar na alexander platz e gritar pelos unknown poets esses viajantes essas libéluas de novas babylónias e talvez a letra
seja
um acaso stop confissões stop faz-te à estrada stop worried warrior. foda-se é interdito. fo-da-se. assim tá-se bem.

Eu até tentei compreender o "ãh", mas quando eu falei do "Be" ninguém tentou me entender
É porque pra eles é o "ãh", tem que ser o "ãh, e pelo jeito vai ser "ãh" a vida toda
Se você quiser saber, depois do B vem o C, vem o D, vem o E, vem o F e com o F eu digo "Foi..."

Por isso eu digo "ãh"
Everybody say "ãh"
Se todo mundo fala "ãh"
Então eu digo "Be"
Por isso eu digo "ãh"
Vem dizer comigo "ãh"
Se todo mundo fala "ãh"
Então eu digo: Fodasse.


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I scrutinize every word, memorize every line
I spit it once, refuel and re-energize and rewind
I give sight to the blind, my insight through the mind
I exercise my right to express when I feel it's time
It's just all in your mind, what you interpret it as
I say to fight, you take it as I'mma whip someone's ass
If you don't understand, don't even bother to ask


Dum, tahh-dum.. ta-dah-da
Dum, tahh-dum.. ta-dah-da
Dum, tahh-dum.. ta-dah-da
Dum, tahh-dum.. ta-dah-da
Dum, tahh-dum.. ta-dah-da
Dum, tahh-dum.. ta-dah-da
Dum, tahh-dum.. ta-dah-da
Dum, tahh-dum.. ta-dah-da
Dum..


Chorus ( ancient words written on an ancient wall, digo eu )

I just wanna love you for the rest of my life, (obie trice)
Wanna hold you in the morning, (I luv’a burnish the monies, the bunnies)
Wanna hold you in the night.. (I just wanna hold you

I just wanna love you for the rest of my life, (obie trice)
Wanna hold you in the morning, (I just wanna hold you)
Wanna hold you in the night..

bunnies. funnies. runnies. fly away comigo baby qu'esta merda não tarda a rebentar e eu só quero é morrer com essa hiperlink de beleza carreirinha branca em espelho de mim e explodir neste céu nesta cidade nesta calçada como basalto importado das serranias e plantado no espanto da multidão de passos de passos de passos senhor dos meus passos dos meus dias dos meus espaços a line uma cor uma parede e todas palavras serão esse manifesto público de


All I need’s a line but sometimes,
I don’t always find the words to rhyme,
To express how I’m really feeling at that time,
Yeah sometimes, sometimes, sometimes, just sometimes,
Its always me, how dark can these hallways be,
The clock stikes midnight, 1, 2, then half past 3,
This half ass rhyme with this half ass piece of paper, (tear)
I’m desperate at my desk if I could just get the rest,
Of this shit off my chest, again, stuck in this slum,
Cant think of nothing, fuck I’m stumped,
But wait here comes something


Just a whisper, whisper, whisper, whisper (x2)

tag tuga por el . in memoriam samo. amos. sombra.




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Eu vou lhes dizer aquilo tudo que eu lhes disse antes
Prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo



yeah.



crew: ney matogrosso em plumas multicolor, enimem com capital caps, coldplay de hot lyrics, gabriel o pensador, fotos da catedral do ognid, the man e bombing de blimunda e baltasar. wall of fame april. street fucking. table dinner. cable sinner. fast food in memoriam de jean michel basquiat, street guru de asas de fogo. todas as palavras podem ser devassadas.

Sexta-feira

 




«Mesmo que fosse um jogo.
Se tivesse que ser um jogo que fosse o do amor»



agora eu sei, ó ana, cabes toda no meu abraço. não. o teu corpo todo cabe todo no meu corpo. todo.

está um calor de moscas. por companhia a tua cadela, a mais velha, e os teus gatos. acabei-te com o sumol. e fiz torradas com o teu pão. os teus filhos dormem. e tu já saíste. agora eu sei, que os teus filhos são lindos e exactamente nesse momento em que sei, sei também que podia embarrigar-me dos teus filhos. é fácil.

agora eu sei, ó ana, que gostas de caril de camarão e cerveja gelada. fumas ultra cigarros ultra. e ouves a gretchen liberum e sublinhas falas que dizem és uma paixão secreta. pertences ao outro lado das coisas e, graças a ti, posso comunicar com esse lado da vida. e suave é a curva da tua boca e o sorriso que se abre assim para mim. e que usas umas sandálias com um coraçãozinho vermelho em cada uma. como se o mundo em que queres caminhar fosse um corpo fofo e de lençóis bordados a ponto cruz matizado. e dizes ser e ter. ou ser ou ter. tens uma irmã irmã com o meu nome e escreves poemas muito devagar mas com a cara de pressa. no emeesseéne. com a tua irmã irmã. falas muito de muito. sôfrega. por exemplo, falas das mulheres quando têm homens a crescer e ser por dentro. e que um homem todo é todos os homens todos e isso é estranho. porque agora eu digo que se pode amar duas três quatro vezes assim um homem assim. amar um homem ele mesmo e nele mesmo, outro. e outro ainda. temos barrigas tão enormes a crescer por dentro. pois temos. e cheiram bem. pois cheiram. cheiram ao doce todo do verão, assim quieto com o restolhar dos gatos a passar. ao sol é muito quente e muito enorme. o verão. e as barrigas das mulheres que cheiram a doce.


quando eras a mais novinha e chegavas com a cara toda de pressa e as tranças empertigadas e dizias eu a-m-o-t-e muito devagarzinho e muito bem dito, dizias já de um homem ele mesmo e um homem outro que crescia e ia sendo por dentro de ti. dizias dos olhos grandes e dizias das esperas. dos dias quentes belos redondos que não passavam nunca e das mãos a fazer ventinhos pequenos para enxotar a tristeza. o teu peito pequenino ia para cima e para baixo com grandes suspiros. e enrolavas as mãos uma na outra. as mãos brancas de veiazinhas azuis. dizias, isto é estranho, sinto assim um buraco a abrir aqui no meio do corpo. onde o umbigo é a austrália e dá saltos ao porto, sabes, mana. parece que qualquer coisa cá dentro se está a mexer e a nascer umas mãos. como um caroço. sabes? quando a gente mete os caroços dentro dos frasquinhos à janela e de repente amanhã já têm uma mão tenrinha? é sempre de repente, dizias. e eu, ó ana, somos só nós a crescer por dentro. não, dizias, não é só eu a crescer-me por dentro, não é só tu a cresceres-te por dentro. é outra coisa também.
não sejas tonta, dizia, vamos deitar-nos ao sol e apanhar grilos e ouvir os gatos a passar sobre o restolho. está bem.

esqueci-me, ó ana, desculpa, era, era outra coisa, era, também a crescer-nos por dentro. assim como que uma vida de olhos muito abertos e palavras importantes. importantes importantes. com pressa. e a cara toda de pressa. porque eu agora estou aqui na tua casa, de visita à tua casa e olho. penso, a tua casa é linda, os teus filhos são lindos e as tuas mãos tecem dias com homens dentro. e há um homem que te sussurra muito de mansinho, mãos, beijos e outros dias em que ele também se cresce-te por dentro. com um silêncio silêncio. importante importante. que estranho, ana, embarrigarmos de homens a crescerem-nos por dentro. filhos homens e homens homens. esses mesmos e outros.

não fizemos um brinde. não faz mal. era bom o vinho. com uma espuma branquinha a sair de um vermelho muito vermelho. assim como um rosa de cheiro a dar-se numa espécie de saliva seiva beijo. faz cócegas no cimo da boca. pois faz. e deixa um rasto de espuma como o mar na praia. mas é doce. pois é.
eu estava a beber do vinho e a olhar e a pensar sentada à mesa contigo a ouvir-te falar. pensava da comida. comida de cores intensas. de como a gente come de tanta comida de cores intensas e a vida é um jantar assim com vinho vermelho e marés de espuma. a ir. a vir. a ir. a vir. e as cores intensas a desaguarem na boca. sabem a amor. pois sabem. e isso é importante. e tem pressa. pois tem. como quando éramos meninas com muito segredos dentro a esperar para crescer e inventávamos as comidinhas de folhas e bagas. faz de conta que é sopa. pode ser gaspacho. mas não é vermelha. vamos apanhar uma pétalas de rosa mesmo rosa vermelha. está bem. e as comidinhas. e os pratinhos com as comidinhas e os copos de pé alto com água suja a fingir champanhe. não fizemos um brinde, ó ana, mas agora fazemos. felizmente há brindes. tão bom fazer um brinde e dizer só assim tchim tchim. os copinhos de pé alto não se partiam quando éramos meninas todas com os segredos todos a crescer por dentro. e agora? agora esquecemos às vezes como é bom o tchim tchim só. e quando bebemos às vezes esquecemo-nos de deixar a espuma nos lábios para a lamber devagar. às vezes. só às vezes. não fiques triste. não fico.

vou escrever-te um poema. para celebrar a visita. porque agora eu sei, porque agora eu lembro-me. quando chegavas a casa da escola e dizias eu a-m-o-t-e muito devagarzinho e seguravas nas minhas mãos, as tranças empertigadas e a cara toda cara de pressa, sabes, hoje eu vi um passarinho ia a voar com uma pétala no bico e eu pensei vai para casa fazer uma sopa a fingir gaspacho e depois vim a correr, e tu estavas cá em casa e queres ir brincar às comidinhas? e depois faz de conta embarrigamos de homens com homens a crescerem-nos por dentro assim no lugar da austrália a saltar para o porto e sentamo-nos a fazer camisolinhas? e depois







ó ana, agora eu sei, o teu corpo todo cabe todo no meu corpo. és tão pequenina.

levo-te um dos gatos. vou chamar-lhe..., eu sei, ó ana, assim homem a crescer-nos por dentro e a deitar umas mãos uns olhos uns silêncios que são importantes. vou chamar-lhe amor.




(continua)



título do luís, a natureza do mal

Quarta-feira

 



O inferno, aqui. Deve ser normal.

Um choro de criança, no andar
de cima, sobrepõe-se à música
que não ouço e que é talvez de Brel
(nenhum quarteto de Mozart serviria agora)

Há dias assim. Os guindastes
da insónia não seguram a voz, desastre
anunciado pela teimosia de pássaros
suburbanos. Coisas de muito esquecer,
se eu pudesse. Mas o corpo hesita,

volta a ser o envelope vazio
de um destino por assinar - e que
nada tem, neste momento, de «literário»,
Sinto a luz na garganta, sufoco
discretamente, alheio ao excesso
de imagens que me traz o dia.
A alegria, se quiserem, fica para mais
tarde. Aqui, de novo, morre-se muito mal.



manuel de freitas, terceiro direito,
poesia inédita portuguesa





2. não há aqui nada de novo


às vezes cresce-nos no corpo uma coisa assim a que damos o nome de é o tempo do tempo. é uma coisa madura e nem sempre vem com o sossego dos frutos de verão. como as nêsperas. ou como a preguiça das nêsperas que eu colhia só de esticar uma mão. no tempo só de me estender no topo de uma árvore, os meus irmãos para ali, o verão quente e cheiroso. a tempo de tempo. não. para madurar, ao invés, o corpo rasga-se em carnes avermelhadas e grandes. e dói a carne assim quase como dói um fruto a quem os pássaros furam os olhos. esquecemo-nos, então, muitas vezes de muitas coisas.

mas agora não. eu lembro-me.


desculpa, ó ana, esqueci-me de dizer que tudo o que é meu, é teu. tu estavas aí, olhando para mim, com os olhos redondos e grandes. na água deles, esperavas. esperavas. e eu para aqui absorta nesta mesmíssima vida que se vive. sem saber já o nome das coisas. sem saber já o nome dos lugares das coisas. e como nesses lugares as tuas coisas são-me. foi já há tanto tempo. é por isso. é por isso que me esqueci, querida. mas agora não.
agora eu lembro-me.


tu eras a mais novinha. tinhas para aí onze anos e um dia, chegando a casa, encontraste o zeca. tocava viola. o zeca. e tu, ó zeca, faz lá uma música para este poema. no comboio descendente. que lindo. ias cantando devagarzinho. muito compenetrada. a mãe achava que desafinavas. que importa desafinar, que importa, diz o zeca, o que importa mesmo mesmo é cantar. quem canta seus males espanta, a avó. sempre a avó com os seus ditados. escreve aí, ó ana, quem canta seus males espanta. e tu copiavas, para um caderninho, quem canta seus males espanta num comboio-descendente. canta a conta dos males descendentes, canta, ó ana. para espantar.

que raio de coisa, espantar os males. é que eles estão aninhados numa curva do nosso olhar a dar-a-dar em silêncios muito cheios de águas importantes e zás! uma só canção é quanto basta para os incomodar. depois, sabe-se lá, dão-se em mãos e ossos de mãos noutras mãos e outros ossos de mãos. e dizem adeus-adeus. adeus-adeus, até ao meu regresso. a cada um, um lugarzinho. quero o meu à janela. e eu também. rimo-nos. senta-te aqui.
tens umas mãos magrinhas. os ossos despontam da carne e quando as seguro nas minhas digo, tens umas mãos que os meus dedos percorrem. são mãos de vales e montanhas: aqui é um vale, entre o indicador e o dedo médio. e a pele é tão translúcida e branquinha. e as veias, pequenos riachos. os meus males andam por aí como o comboio descendente. queres espantá-los com a mesma canção que cantavas quando o zeca se sentou na cozinha da tua casa e inventou a música para esta canção-comboio-descendente? tu dizias, vamos inventar uma viagem para nos enxotarmos quando estamos tristes, vamos?, por exemplo, uma viagem descendente-ascendente-descendente cheia de coisas para ver. para os olhos se encherem de coisas para ver e não de águas importantes. os males todos num comboio. e toda a gente entra nele. e toda a gente sai dele. até o zeca. por fim, no fim da viagem. há tanto tempo, ó ana, quase esqueci. mas agora lembro-me.

tinhas para aí onze anos e usavas umas tranças assim meio empertigadas. nunca conseguias chegar sem que o fôlego te faltasse ou a cara tivesse uma cor de pressa. pressa de chegar e ser. foi há tanto tempo, ó ana.

e não é que eu quisesse mas tu dizias-me: deixa-me dizer-te uma coisa importante mesmo, mais importante que as águas dos olhos. assim como um segredo. tu eras a mais novinha e ainda tinhas no corpo aqueles segredos todos que todas as meninas têm na idade dos segredos. depois não. ficamos mais nuas. despidas, quero dizer. vamos largando os segredos e largando os segredos do corpo de menina. então, disseste. disseste-me um segredo.

sabes, eu amo. assim, disseste, com a importância toda de duas tranças empertigadas e um corpo com a cor da pressa de ser. eu
amo
te. e silêncio. e silêncio de olhos aguados importantes. eu
também
amo
te. e também silêncio. silêncio silêncio. dos importantes.

mana,
nos dizíamos, mana, como as nossas avós diziam mana às cunhadas. tão lindo. eram quase sempre meninas para sempre. as nossas avós. nós não. às vezes crescíamos. e o corpo crescia também. despia-se dos segredos todos de menina. e doía. de um mal com importância. também em silêncio. também. é por isso que me esqueci, ó ana, de te dizer o que é meu, é teu.
a mãe, as meninas importantes, as que são mesmo importantes a crescer para mulheres, aprendem a calar. não há nada de novo aqui. já tudo foi, dizia. ó ana, lembras, tu olhavas para mim e eu sabia. dá-me a tua mão. essa mão branquinha de pele translúcida e cheia de veiazinhas como riachos. sim.

silêncio. o meu corpo é igual ao teu. pois é. e tem os mesmos altinhos. e quando nos abraçamos muito eu sinto os teus altinhos. que lindo. a tua barriga faz assim um balão. quando respiras esse balão incha contra a minha barriga. eu sinto-te na minha barriga. quando embarrigarmos assim de maridos eu quero sentir a tua barriga de balão de marido na minha. quando embarrigarmos as duas vamos ter um filho de homem dentro. e como é que isso é? não sei. acho que é de amor. eu amo. te. achas podemos embarrigar de marida? acho que não, ó ana, acho que é só de marido. acho. mas os nossos filhos vão ter mãos pequeninas e branquinhas de pele traslúcida de veiazinhas azuis e agarrar as nossas mãos. e ter caras de pressa de ser. como tu. ainda bem que são nossos.

que estranho agora. as mulheres na rua empurrando carrinhos com filhos dentro. páram para olhar os filhos de umas. e de outras. e dizem o meu. de si para si, o meu é mais lindo. e tem as mãos mais branquinhas. esquecem-se dos homens. as mulheres. embarrigam umas das outras. parece. eu conheci um homem que dizia o nosso filho. a mulher também. mas eram alemães e a gramática dos filhos em alemão é diferente. e às vezes, quando oiço os homens conversar penso, o que é que os homens conversam, quando conversam sobre barrigas com filhos dentro. um diz, eu queria mesmo é embarrigar como ela e criar leite como ela e dar de beber o meu leite todo como ela. os outros olham de fora. olham de fora para ele. pensam exactamente a mesma coisa. mas não dizem. é silêncio. não dizem segredos assim. como ele. ficam com os segredos todos no corpo. por isso às vezes acho que os homens ficam com esses meninos todos no corpo todo. alguns. os dos segredos, digo.

tu dizias-me, achas que eu vou dizer amo-te como um segredo a um homem. e deixar crescer na barriga uma barriga de homem todo. não sei. deixa lá, conta-me a mim. conta. mas tu não podes embarrigar de mulher. só de homem. não faz mal. faz, faz.

como é que se faz para entrar mulher toda num corpo de mulher. deve ser devargarzinho. é. porque as mulheres com pressa de ser vêm sempre muito devagarzinho. assim. cheias de caras e de olhos aguados. quando me deito aqui contigo no topo desta nespereira penso, não há nada mais com tanta pressa que uma nêspera. é um fruto muito urgente. a carne é quanto baste. e lá dentro tem tantas, mas tantas sementes. é como nós. pois é. eu tenho muitas sementes urgentes dentro de mim. eu também.

anda, vamos cuspir caroços em cima das cabeças destes homens importantes que passam ali em baixo cheios de pressa. ah, mas não é pressa pressa. pois não, é pressa não importante. é pressa de passar. só. pois é.

devargarzinho. a tua mão braquinha na minha. os teus altinhos são como os meus. e na pele vêem-se os riachos azuis. são as veias. mas lá dentro não é azul. chiu, pois não, é vermelho. escuro. como as rosas. sabes que as mulheres têm uma rosa dentro. sei. eu já espreitei a tua. cheirava bem. mas não cheirava a rosa. pois não. cheira a mulher.

ao que é que as mulheres cheiram. cheiram a leite. e a fatias douradas como a avó. a minha quando me lembro cheira a bolinhos.

as mulheres cheiram a doce.

conta lá outra vez, quando eu chegava e vinha com duas tranças empertigadas e a cara de pressa de ser. está bem.






(continua)






Terça-feira

 










1. dois alqueires bem medidos



deitada, no topo de uma nespereira, via a cidade e os homens da cidade aos meus pés. os muitos caroços que me assaltavam a boca ia-os cuspindo para baixo. de vez em quando um acertava na cabeça de alguém. esse, alguém, olhava para cima e dizia: não tens os dois alqueires bem medidos.
deitada, no topo de uma nespereira, preguiça toda feita, esticava uma mão e era quanto bastasse para alcançar um dos frutos. o doce da nêspera escorria-me pela cara. peganhento, atraía abelhas, moscas e, em carreiro pelo tronco da própria árvore, formigas. dezenas de formigas. algumas vezes eram grandes. de cabeça avermelhada. e com umas pinçazinhas a servirem de mãos. outras não. os bichos vinham todos ao doce. e eu pensava, os bichos todos vêm todos ao doce todo.
os meus irmãos diziam, olha o sol, parece uma laranja da baía, a mamã até podia fazer rodelas para enfeitar a travessa da carne assada do domingo. é. mas eu preferia esticar uma mão, abrir os dedos muito muito e através deles ver o sol recortado em gomos. depois, chupava um a um, cada um. e imaginava, vou ficar com uma barriga de sol aos gomos. dentro. e o meu umbigo é áfrica. com o equador assim. cor de laranja e gomo de laranja.
quando o sol se podia comer aos gomos, o tempo não era tempo. durava. dormíamos a sesta assim. com a preguiça toda feita preguiça. no topo de uma nespereira. enquanto em baixo a cidade e os homens da cidade nos iam caminhando no futuro. com pressa. sempre com muita pressa.
o que queres ser quando fores grande, perguntava. quero ser entregador de gás cidla, respondia o meu irmão, gosto daqueles camiõezinhos muito muito pequenos. mas são mesmo camiõezinhos. assim com preguiça de serem grandes. o gás cidla vinha num camiãozinho a casa. havia uma ficha com o nome do meu avô. como é que de tomar vinha para lisboa o nome do meu avô era um mistério. o avô já morreu. e ficou na casa de tomar. não ficou nada, ele foi para o céu. com a avó. eu não acredito no céu. não tens medo de não acreditar no céu, não, não tenho medo, digo eu, porque às vezes o céu está tão escuro e chove saraivada e eu penso, o céu destes não pode lá ter o meu avô nem a minha avó. porque eles não iam gostar de chover-se em saraivada. aleija nas mãos. e se no céu o avô e a avó forem assim uns anjos. então acredito. então os dias são sempre de verão e nós dormimos a sesta deitados com a preguiça toda no topo de uma nespereira. o tempo não é futuro e nós não sabemos o que queremos ser quando formos grandes. o avô morreu. e a avó também. eu sei, digo eu. eu espreitei pela janela e vi.
eu quero ser assim como o papá. escrever em papéis. muitos papéis. e dizer coisas importantes ao telefone. eu não. não gosto do telefone. tem lá dentro muitas pessoas. e a mamã diz custa muito. vamos ver a heidi. a heidi tem um avô. e quando acorda de dormir no alto de uma casa como uma nespereira o avô já está acordado a fazer o pequeno almoço com o leite das cabrinhas. o leite tirado e bebido logo é quente. e sabe muito a leite de cabrinhas. ao que é que sabe o leite de cabrinhas. sabe a leite de pequeno almoço de avô. o nosso avô tinha uma mãos com uns dedos gordos. e as unhas eram parecidas com as do tio. cada unha parecia uma lua gorda de lua quase lua cheia. havia muitas luas. e então os gomos de laranja do sol eram mais curtos. mas eram mais gordos. e o equador onde ficava. faz de conta que era na austrália. o meu umbigo era a terra do skippy. e quando eu comia os gomos de sol o mundo dava saltos. faz de conta que a austrália saltava para o porto. vamos brincar aos mundos. primeiros.
chama o paulo alexandre. não. vamos ser só nós. se não acertares dentro não vale dizer, faz de conta que isto era a lua porque a lua também é da terra. como as unhas dos dedos gordos do avô. e o sol, posso dizer que o sol do céu é da terra. não. porque depois não sabemos dos anjos. o céu é o céu. a terra é a terra. só vale a terra. não me apetece brincar. está muito calor. as formigas voltaram para casa. e as abelhas voam muito depressa com as asas a fazerem ar fresco. mas é um fresco muito pequenino. um fresco só para abelhas. as abelhas vivem num mundo que é muito grande para elas. então fazem assim mundos muito pequeninos onde cabem as asas delas de fazer fresco. e as formigas. as formigas vivem em mundos escondidos. nos buraquinhos. eu gostava mais de viver nos mundos escondidos. faz de conta que eram mundos muito grandes dentro de buraquinhos. a gente olhava e dizia, olha um buraquinho. e lá dentro era um mundo muuuuiito grande. mas não se via. via via se olhasses com um binóculo. quando as fomigas crescem ficam com umas pinçazinhas em forma de mãos. e têm de ser grandes e caminhar no futuro. vão acartar coisas. o doce todo das nêsperas. uma vez vi umas formigas das crescidas a acartarem um escaravelho. mas já estava morto. as formigas não têm céu. nem os escaravelhos. só há anjos de pessoas. o papá às vezes está a ler e diz assim viver sempre também cansa. achas que ele é como uma formiga de pinçazinhas de acartar coisas. não. é uma pessoa importante. e diz coisas importantes pelo telefone. e escreve em muitos papéis. eu tenho medo de morrer. e de ficar cansada. eu também.
vamos só ficar aqui deitados no topo da nespereira com a preguiça toda feita. boa.

e agora tu dizias assim, quando morrermos vamos para o céu céu.
está bem, quando morrermos vamos para o céu céu.

: não tens os dois alqueires bem medidos.



águas passadas

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*i'm sick of doubt* *breaking the waves* *let's reinvent the gods* *feast of friends* *i'm a barbie girl* *o baltasar da blimunda. a blimunda do baltasar*

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