i'm sick of doubt*** escrever e reiniciar a acrobacia da angústia, a mesma que se espalhou no charco das mãos humanas, após a rampa da carne materna ***
( - que vês tu quando assim olhas?- vejo.- mas o quê?- nomes. )- tudo se torna um nome com a distância.sete partidas. uma chegada.UNÍS(SON)O CAISausentam-se as coisascom a tua ausência. este o tempoem que crescem bolores nas paredes. a memóriaque se guarda--o corpo dá-se nas rugas: o rosto de perfil:assimetriacriaturas iguais a nóshabitam o lugar nenhumesse limbofissurado corpopor onde escorrem as horasiguaisiguaisausenta-se o mundo com a tua ausência.na boca um gosto de sal. líquido sal.salinos os olhos. salinasas lágrimas que a boca chupa.1 o tio antoninho morreu tísico. era criança. penso que deveria ter quatro anos. a tísica apanhou-o por ser belo e ter um rosto de anjo. diziam este menino é um anjo, dona lourdes. e beijavam-no na cara, nas mãos, esperando-lhe um milagre. ali o vejo na fotografia oval. entre a minha avó e o meu avô , muito jovens. belos, os três. jovens e vivos e belos. a minha mãe contava-me que desde a morte do primogénito assim, às portas de um milagre, a avó nunca mais sossegou o coração de mãe. e de cada vez que a malvada da tísica se mudava para a vizinhança, ela convencia o avô a mudar de casa. diz a minha mãe que no mesmo bairro chegaram a morar em quatro casas. a fugir à morte revivida do meu tio antoninho.2 ainda lhe chamamos tio antoninho. mas os meus avós morreram quando eu tinha cinco anos. lembro-me bem. porque primeiro a minha avó começou a aparecer na sala toda borrada nas pernas. e a criada a cantar ó tempo volta para trás. depois passei a sair todos os dias de mão dada com o avô. íamos ao cemitério. ele dizia, vamos visitar a avó. eu não a via. mas a figura imponente do avô de bengala impedia-me de o contradizer. ademais, comia sempre uma sombrinha de chocolate. vinham embrulhadas em dois papéis, um de prata de cores sempre diferentes, que eu depois esticava com a unha e guardava, e outro de celofane às cores. mas o mais bonito era mesmo a fitinha de seda. e lamber a bengalazinha da sombrinha, tentando arrancar com os dentes da frente os restos de chocolate que por lá resistiam (já não se diz sombrinha: agora é guarda-chuva. não é tão bonito).que será feito dessas fitinhas. durante anos as vi. primeiro nos cabelos das bonecas. depois dentro de livros. um dia desapareceram. foi assim como a memória dos meus avós. sobrou-me apenas o cheiro. e essas fotografias a preto e branco em que eu apareço dentro de uma tina de cobre, na casa de tomar, de palmeirinha no cocorutu da cabeça. como se fosse uma ilha no meio daquela tina. e a mão da virgínia, a criada dos meninos, a aparecer ao lado como um istmo. foi para freira, a virgínia. já o nome o augurava. agora é madre. suspeito que aquela fotografia foi tirada para mandar aos meus pais. ficaram na guiné. onde nasci. os meus pais fizeram a guerra juntos. a minha mãe a parir dois filhos. eu e o meu irmão joão. o meu pai de sapador. no meio do mato. mas o que eu conheço da guiné são as fotos do meu pai a jogar à bola num terreiro, uma perna ligada depois de ter sido ferido com estilhaços de uma granada. e a minha mãe grávida, no alpendre da casa de bissau. ah, e o impedido do meu pai. o impedido, que raio de posto. impedido de quê? diz-me a minha mãe que ele, moço ainda, me tratava pela a nossa menina. mas depois eu vim de avião, sozinha, para casa dos meus avós em tomar. os meus pais ficaram. à minha mãe crescia-lhe no ventre o meu irmão. ao meu pai a angústia. sempre o conheci assim. com uma angústia arrependida. que só se percebia nos seus longos silêncios. ou nas noites húmidas de verão em que acordava aos berros e se sentava de olhos muito abertos na cama. a minha mãe sossegava-o. dizia, vá, dorme, já passou.eu ouvia-o. e não entendia. mais tarde até cheguei a pensar que tinha orgasmos assim ruidosos. mas não. era a alma do sono a regressar ao húmido da guiné. e às histórias que nunca contou. por isso eu sempre amei os retratos a preto e branco em que o meu pai jogava à bola num terreiro africano. porque as outras histórias me assustavam. como os gritos dele. o tio antoninho é assim como essas histórias. está por contar, muito lindo, a preto e branco, entre a avó e o avô. na parede da sala.3 a minha mãe foi filha tardia e única rapariga. nasceu quase morta. ela diz, nasci morta,roxa, tiveram que me meter em banhos de água fria e água quente. alternados. mas lá medrou. entre papas de linhaça e emplastros de mostarda. e teve muitos glãnglios e muita outra coisa com nomes esquisitos mas que não eram nem festas de aniversário nem rebuçados embrulhados em papel de seda. e eu às vezes penso que deve ter sido estranho ser assim arrancada à morte e viver entre remédios de nomes estapafúrdios e de cheiros tão improváveis como a mostarda no pescoço e a linhaça no peito. eu, que me afligia com o cheiro da menstruação e imaginava cenários de horror em que todos os meus colegas se riam do meu cheiro de mulher, pensava-a muito corajosa. agora não. dou por mim a encontrar um prazer peculiar no meu cheiro.reconciliei-me tarde com isto de ser fêmea. em boa verdade penso até que foi preciso chegar aos quarenta anos para isso acontecer.é que a minha mãe, com o seu pragmatismo de sobrevivente e a sua ãnsia de mulher emancipada deixou-me um rasto de negação. e eu cresci a desejar poder mijar de pé e não ter o período. surpreendia-me sempre com os rapazes que se apaixonavam por mim. sentia-me um patinho feio no meio de um bando exuberante de pavões. e escrevia longuíssimas cartas de amor imaginado a um objecto de amor imaginado. assexuado até. ou melhor, tanto queria morrer pelo olhar do james dean, como pelo corpo da brigitte bardot em viva zapatta. o que me trouxe algumas noites da mais profunda angústia. mas isso eu não contava a ninguém. nem à minha melhor amiga. só mais tarde. ao joão paulo. quando nos apaixonámos impossivelmente a caminho do gerês para umas férias. mas do amor que sentíamos não lhe conhecíamos ainda o nome. o corpo falava-nos numa linguagem desconhecida. para ali ficámos todas essas noites trocando carícias por beijos e abraços por amplexos. e foi então que passámos a confidentes um do outro. até hoje.4 as coisas da vida sucedem-se na nossa memória muito sem nexos de causalidade. por exemplo, porque raio é que ao falar do joão paulo nasce em mim esta estranha imagem da visita a casa dos meus primos em tomar. antes de irmos almoçar com eles passámos a ver a nossa casa. e lá estava, o portão alto, o quintal para onde caiu o gato que o meu irmão joão pendurou da janela, o muro de pedra que dava para o colégio sei lá das quantas perto do qual caiu uma pedra em cima da unha do pé do meu irmão miguel, que nem chorou quando lha arrancaram, só ficou assim muito branco, as marquises de janelas em quadrados de ferro. e de repente, a minha avó lucinda, noutra casa, abrindo a porta das traseiras e eu e os meus irmãos a ver passar o rebanho de ovelhas. cheirava ali ao mesmo cheiro que vinha agarrado a ela quando voltava da terra. trazia os queijos e o pão de azeite, a bica. não sabia a nada, a bica, a não ser azeite, era achatada sem miolo. mas a minha avó lucinda fazia dela um ritual. talvez porque viver na cidade sem nunca ter abandonado verdadeiramente a terra nos dê essa nostalgia de pão. as fatias de bica beirã eram barradas com flora e consumidas dias a fio. com café de saco. coado por um funil de flanela que de branca passava rapidamente a escura, e que secava sempre pendurado na torneira do gás, junto ao fogão.houve um verão em que eu e o meu irmão paulo fomos com ela. o paulo era muito querido por todos. assim como o tio antoninho. de cara muito redondinha e loiro parecia também ele um anjinho. todos o beijavam. lá na terra. da minha avó. mas não morreu de tísica.talvez a minha terra tenha sempre sido estes amigos. a quem contei os segredos da brigitte bardot. e outros. também segredos. quando morrer quero uma campa de rosas e segredos.5 o meu avô paterno morreu em espanha. e está enterrado em badajoz. durante o resto da vida todos os anos a avó viúva mandava uma carta com uma nota lá dentro para a senhora que ia tomar conta da campa.os meus avós maternos estão em tomar. juntaram-se às lendas da minha infância. como aquela do santo condestável ou o viriato trágico e que eu lia em adaptações editadas pela sá da costa. eles agora são assim. todos eles. as personagens do assombro.6 o meu avô era militar e a minha mãe andou no colégio de odivelas. suspeito que não gostou mas quando fala desses anos refere a estupenda educação que lá teve. pois. e que lhe serve hoje para maldizer o ensino e a falta de preparação que começa nos professores, diz ela sempre muito convictamente enervada, de cada vez que tento falar da minha perplexidade perante acontecimentos da vida escolar dos meus filhos. olha se agora eu desse em partilhar com ela estes mistérios da minha vida de fêmea. provavelmente atirava-me com o colégio de odivelas e dizia, filha, toma um lexotan e vai dormir que isso passa.dormir em minha casa era uma acto obsessivo. não dormir tornou-se no meu acto revolucioário. greve às intermináveis sestas de verão. as horas certas para o beijinho boa noite e até amanhã se deus quiser, e na cama, debaixo dos lençóis, a lanterna a correr páginas. (sim, mamã, não durmo)a noite sempre foi assim um misto de silêncio de arrepio e de silêncio onde tudo podia acontecer. até o scott fitzgerald aparecer, puxar as mantas e deitar-se de papo para o ar, a contar muito lentamente, com o corpo todo esticado e sem descalçar os sapatos de verniz, a festa bestial de onde vinha. bestial era uma palavra muito na moda na altura. e fina. só a gente fina dizia bestial. os outros diziam giro. mas o meu pai não gostava que usássemos essa palavra. dizia, qualquer dia não há outro adjectivo, é tudo giro. pois. agora é fixe, ou bué da fixe. sempre há outra. mas o fitzgerald dizia bestial e darling. estranhamente quando vi o grande gatsby ele tinha a cara do robert redford. um deus americano. uma amiga obrigava-me a percorrer todo o seu album de recortes redfordianos. achava que lá estava o meu darling. mas não. o fitzgerald era mais assim uma figura de cabelo todo escorrido a brilhantina, o corpo esguio, as pernas longas e uma mãos, ah, senhores, umas mãos brancas com um anelzinho no dedo mindinho.
7 porque passei a gostar de figurinhas meio tísicas meio decadentes. que se arrastavam pelo mundo com aquele tédio, aquela nóia, toda feita de uma náusea existencialista. diziamos nós. eram figuras da vida real. olheiras profundas. olhares tristes de míope. uns eram assim como metamorfoses do kafka. outros corvos do poe. muito muito cheios de boris vian. vivíamos muito a sério da nossas perversões de morte. e morte. a morte é bela quando a adolescência é uma doença grave e o tempo que passamos a sarar as feridas que o tempo abriu pode revelar-se uma máquina infernal. como um comedouro tremendo em que tudo é estilhaçado e reduzido a imagens soltas. que depois se colam a nós.as máquinas mais estranhas sempre habitaram a nossa casa. uma, a máquina do silêncio. toda fabricada de palavras por dizer. conversas que eram apenas ecos na minha cabeça. ou carinhos trocados à noite em rodas dentadas, dentadas. que chiavam muito. sobrou-me a palavra fanerogâmica e a palavra filoxera. essas o meu pai não meteu na máquina do silêncio. fui eu quem as triturou na mixer dos meus dias e das minhas noites. outra, uma espécie de ventoinha eléctrica de meter no tanque da roupa era a máquina de lavar que levávamos para férias. estranho aparelho que a única coisa que fazia era revoltear a roupa dentro do tanque. e se nos descuidássemos também o detergente inchava e galgava para fora. depois eu e os meus irmãos patinávamos aí. nessa pista de gelo detergente da roupa. havia também uma panela eléctrica amarela que fazia o melhor arroz de frango das redondezas. e era só meter lá tudo e programar. depois o tempo era de fugir para a sala. a cozinha em minha casa era uma espécie de cadeia rodeada de arame farpado. só lá se entrava depois de se cometer o maior crime de todos: ser mulher e ter de cozinhar para a família. na maior parte das vezes a condenada era a minha avó. a minha mãe era uma imagem cómica na cozinha. cigarro numa mão, livro na outra, indaguei-me muitas vezes como lhe sobravam mãos para misturar as coisas de comer. mas ao domingo por vezes não. lá vinha o cozido à portuguesa. eu e os meus irmãos tinhamos um ritual para consumir o cozido. depois de tudo espalhado e diferenciado no prato o eleito rei do cozido comandava as garfadas. farinheira. tudo comia farinheira. nabo. ninguém a não ser eu comia nabo. arroz. ríamos. o riso dos tolos, dizia o meu pai. se sobrava farinheira a vó escondia-a. era louca por enchidos mas a minha mãe dizia, a mãe não tem juízo, não, não come os enchidos hoje. ela olhava o filho, o meu pai, mas este olhava o prato em silêncio. lá tinha eu de fingir que não a via esconder a farinheira que sobrava no armário do café. não mamã, deitei fora. a avó piscava-me o olho e deitava a língua de fora, ora toma, dizia. cúmplices no crime. como quando fugi de casa a primeira vez e depois fui parar a casa dos meus tios. ela telefonou-me uma tarde de domingo e disse, vem agora que não está cá ninguém. e eu voltei para casa. sem ir encolhida. porque não estava lá ninguém. só a vó. a máquina do silêncio nela maquinava frases assim. cheias de um entendimento quase de criança.Ó, PUDESSE ESTA SER UMA NOITE A DOIS TEMPOS:NUM, A PARTIDA DA MATÉRIA DO MEU CORPO; NOUTRO,CHEGAR CEDO A UMA PALAVRA PARA O NOMEARNO ROL DAS COISAS...O QUE ME ACONTECEÉ A BREVIDADE ENTRE SER E TER. E A NOITE DEIXA-ME UM GOSTODE ESCURO INADIÁVELINADIÁVELo rasto de seda húmida da tua boca. a transparênciados teus olhos como dossel. esta é a cama emque duas rotas se cruzam. há um estranhopercurso na cor que derramas sobre mim. qual o destinodessa cor aguada. os teus olhossão andarilhos no meu corpo. edesbravado à tua passagemo tempo acontece entre os meus seiosas minhas coxasos meus lábioscomo uma réstea luminosada tua presença. cheira a amanhã.e por empréstimo tomamos como nossa a eternidade.quanto de nós vem agarrado às fotografias que descobrimos nos albuns de família. desejaríamos poder retocá-las como antigamente os fotógrafos quando compunham as faces lívidas dos mortos no seu leito. eu por mim retocaria o tio antoninho. com a sua história por contar, sempre a pesar por aqui, de cada vez que lhe descubro o retrato encontro uma razão diferente para a beleza dele. ou o tio luís. com a sua tristeza toda de olhos e uma morte aos trinta e seis. de amor. sempre imaginei que morrera de amor. e isso marcou a minha existência mais do que qualquer romance que tenha lido.não é fácil ter na vida um tio materno que morreu de amor. era belo. com um olhar tão triste quanto belo. e jovem. eu creio que foi o meu homem imaginado durante muito tempo. depois aparece nos retratos com um chapéu puxado sobre os olhos, um chapéu escuro de feltro, ao lado de uma fonte. ele muito sério. talvez a morte já o rondasse. do outro lado o irmão. o único tio que conheci.a vida do tio luís roubei-a de cartas que li às escondidas. cartas que escrevera aos meus avós. lá do desterro onde voluntariamente se deixava morrer. e as respostas. as cartas diárias que a minha avó lhe escreveu mesmo já depois de morto e enterrado.diz a minha mãe que a avó tinha sonhos premonitórios. e que sonhou a morte do filho e foi por isso que desistiu da realidade. talvez. viver assim numa espécie de presente passado em que tudo é perfeito é mais fácil. como a canção que a criada insistia em cantar.a criada cantava ó tempo volta para trás. fritava jaquinzinhos. recordo o cheiro a frito e a canção. casou com o impedido do meu pai. lá de tomar. mas durante anos o que restou dela foi essa canção que tomou conta do meu universo de saias e cheiro a peixe frito. até que a minha avó lucinda ocupou tudo. trazia na bagagem um rol de provérbios, ditados, dizia, que aplicava com habilidade a todas as circunstãncias da vida. não gostava que eu assobiasse. e cantar era apenas tolerado. ó menina, dizia, pareces uma tola. ela era a senhora do lar e a senhora dos nossos dias até ao regresso da minha mãe ao fim do dia.depois voltava a ser a 'vó.a mãe e a 'vó sempre disputaram o seu lugar na nossa vida. mas a 'vó acabava por ganhar. era quem estava lá. e eu ouvia à noite as discussões em surdina. a minha avó não achava certo a minha mãe trabalhar e voltar tão tarde e não ser uma irrepreensível fada do lar. e achava que eu era uma cavalona. cavalona foi um nome que me acompanhou durante muitos anos.vai para casa, cavalona, ouvia as mulheres da vizinhança gritarem-me quando cavalgava os baloiços ou trepava as nespereiras com os meus irmãos. fazia orelhas moucas e chinchámos muita fruta nos quintais do bairro.
não há fruto mais sumarento que o proibido. mesmo que para isso tenhamos que ser cavalonas.SERIA MAIS FÁCIL REINVENTAR-NOS. O DIACONTINUA A PENETRAR AS JANELAS. FORMA SONSQUE ECOAM NESTAS PAREDES. ANDA. VAMOS CONVOCAR-NOSNO SILÊNCIO RUMOROSO DOS NOSSOS CORPOS. E PARTIR.O MUNDO PODE SER UM LOCAL SILENCIOSO. SIM. AQUI. ENTREA MINHAE A TUAPELE HÁ UMA HORA INTERMÉDIA. TALVEZ SE DIGAALEGRIA. TALVEZ SE DIGA ALEGRIA.se a bagagem em que nos explicamos forreduzida ao peso mínimocertamente a minhae a tua alma enchem de plumas este mesmo lugar.
então todaa vida encerrada numa malacabe numa palavra. por inventar as sílabasem que nos soletramos. qual delas me pertence. ea tua como a dizes.a luz invade esta sala de espera. desfaz-se em poeiracontra os móveis. móveis de imobilidade absoluta. háquantos anos estas cadeiras aquino mesmíssimo lugarrecebem corpos desencantados. a vida é uma espera. e toda a vidase espera toda a morte.e todavia bastaria uma paisagem diferentepara nos amenizaras partidas. as chegadas. por dentro dos dias
os caminhoseliminariam os sentidos proibidos. masaquinesta sala de esperatudo o que cá permaneceme ignora. e ignoraesta viagem interior da palavrado gestona comoção do gesto. sento-me também eu. irremediavelmente.QUANDO NO MEU CORPO SE ABRE A DORé todo o chão sob os meus pés que me foge. descalçasinto cada uma das pedras pelo caminho. o basaltoé frio. tão frio o caminho como uma lápide qualquerem que se inscreve o nosso nome.passo a mão no rosto. alívio. sinto a tua mãoaquique me seca este suor frio.cheira-me ainda a amanhã.cada uma das linhas que se traçam na palma das minhas mãosconta uma história diferente. aquiemprenhei de espanto. ali desencantei-me. partidalargadafugida. ecos. ecos. e sentadaespero. neste cais
subitamente
um silêncio abobadado cresce. olho-me: a alma aos pés já empacotada.leva pela mão a sua mão vazia, esse filho discordante. é tristeo acenar do adeus-adeus num cais cheio de gente. as gentesperfilam-sejunto à risca amarela-não trespassar-quase unidas quase sabendo umas das outras e cresceesse momento em forma de mãos. há um sentimento que balançapara cápara láentre ter e querer. entre ter e ser. ter de ser.vou dizer que a risca amarela me dividede ti.desculpa. a vida toda a tentar apagá-lae agora mesmocresce esse momento em forma de mãose eu sei. adeus-adeus.não gosto da palavra adeus. prefiro até já.é a urgência. com todo o esplendor do já vistoe que vai acrescentado. acrescentar uma sílaba. acrescentarno corpo a parte-ida. quando assim me leioparte ida partidao anagrama do meu próprio nome assoma: amar-teum tê esvaído enfrenta-me: a morte: amar-te como à mortee assim me arrancar a mim mesmaDESMANCHAR UM PENSAMENTOpingá-lo do sal de todosos risos. não sei como é que as lágrimasse mascaram de alegria. mas adivinhoque é aíentre os teus braçosque a chegada é mais doce. deixo-meembalar pela músicaque nasce com o pensamento de ti.estou num tempo indefinidamente prolongado em que as coisastêm nomes tão indizíveisque nem as posso nomear. por exemploa morte no corpo. como a deveria chamar. re clamação?sobem as sílabas como febreos olhos reverdecem em letras de cor estranhaa mim mesma.na boca há um som prolongado. uma única palavrabastaria para matar esta morte de mim.cada um de nós é uma só palavra. toda a vida aprendemos a dizê-la i want roses in my garden.
dá-me essa morte
num jardim escuro vazio
numa qualquer cidadenum qualquer tempo. semeamos toda a vidaas rosas de que iremos brotar. jamaisas veremos porém. maso seu perfume é irrepreensível. eu querorosas no meu jardim. aveludadaspétalas para que me toques com volúptiae sintas o arrepio de prazer queque dizes rasgar a tua pelequando nos deitamosum no outro. queroo vermelho do sangue transmudado em espinhosque hão-de pingar o teu vermelhona minha seiva. não há perfumemais intenso que o dos amantes. não hácor mais intensa que o rubro dos amantes. aincandescência dos corpos desfaz-senessa rosa vermelha. rosesroses in my garden.AGORAcomo se tudo tornasse ao brancoerguem-se estas paredesde cal. viva
reescrevo a minha históriapor entre as brechas que o tempo me deixa.regresso aos lugares que sempre me pertenceram. umacama larga. um livro. as plumas leves do diapor agasalho e tu. o teu corpocomo cais de embarque.a viagem mais longa que fareicomeça agora.girl you gotta love your man. take him by the handmake him understand the world on you depends our life will never end you gotta love your man cavalgar o asfalto quente desta vida a bordo de um enorme autocarro azul, dizias, e eu escutava embevecida com a ideia de transportar toda a casa sobre um único rodado.uma imobilidade mansa toma conta de mim. i prefer a feast of friends to the giant family.rui nunes.o grito. ***subtítulo de luisa monteiro, o evangelho das rãs, a foto de casa do afonso.
blimunda e james douglas morrisson, we're so sick of doubt.