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ante mare, undae

Terça-feira

 





















uma esmolinha para as alminhas do purgatório




tudo que sobe
desce
e por isso inventaram as alminhas do purgatório



quando o sid vicious entrou na nossa vida o ricardinho ainda usava botas docmarten e marchava todas as santas noites para o bairro alto. excepto às segundas. às segundas descansava. um dia morreu-se. assim. de morte matada mesmo. ali para os lados do campo pequeno. entre uma superbock e uma sandes de coirato a cheirar a porco capado. os olhos muito abertos. disse, this is not a love song, god my man. veio um anjo com asas azuis e puxou-o. vimos perfeitamente essa morte matada ser elevada. uma língua de fogo. ele de olhos muito abertos falava, this is not a love song, god, my man. arrancou o anjo algumas das suas penas. cairam no chão. corremos para as devolver às mãos do ricardinho. e ele de olhos muito abertos, o céu é uma terra muito azul muito azul. e todos os anjos voam por cima de nós. com os passos perdidos que às vezes nos encontram. god dá-se em espasmos de anjos com caras tão iguais às nossas. esta não é uma canção de amor. em ruas embriagadas de música esta é a morte matada. morri-me disse. de morte matada. disse. e caio no azul muito azul.

na terra da avó por cima do portão do cemitério pende um aviso: estais a entrar na terra da igualdade. ovelhas pastam no terreiro defronte e lá ao fundo vê-se a espanha. a espanha está a essa distância entre este terreiro de ovelhas pastando e a porta de onde pende o aviso. é como uma terra prometida. quase. quando a gente morre assim entre uma idade de inocência e um corpo primavera há sempre qualquer coisa que sobra e teima em não ocupar o espaço de igualdade que a senhora morte abre entre os braços. é um salto clandestino.

éramos jovens. noites escuras de calçadas batidas e carros roubados à porta de casa. havia um fiat pequenino. uma nova arca de noé. ou não é. tinha escrito numa das portas: no future. na outra: não há pão pra malukos. acelerava avenidas fora com esta espécie de sentimento. no future god my man. no future para ti.

o catecismo da igreja católica é firme: purgatório: esse terreiro intermédio à entrada do paraíso. cobram-se bilhetes para a passagem. estreita a passagem. dizem. e fica-se à espera. porra, toda a vida a gente espera toda a morte. depois morre-se com a mesma cara de sempre. o corpo minado pelas veias onde a insónia se instala e somos condenados a essa sala de espera de deus. porra, deus vai a despacho. assina papelinhos tão pequenos como os que sopramos nos dias de carnaval. em cada um deles uma morte matada. e uma espera. o ricardinho foi nas asas azuis de um anjo. o mesmo que nos sussura pela noite dentro esse silêncio em que nos damos todos.

a morte mata-se todas as noites. quando o cio dos corpos faz uma música tão ensurdecedora que até deus se esquece de ser.

deus olha e diz, é bom. muito bom. anjos azuis enganam deus ao fim do paraíso. e em cada noite o purgatório se esvazia de espera. a morte mata-se. a morte mata-se. também. ou morre-se.

( à conversa com deus acariciando uma asa de azul crescente o ricardinho terá dito: this is not a love song, god, my man, tamborilando com os dedos no joelho. ali mesmo onde o rasgão das calças lhe abria caminho para a carne. e deus terá olhado o indigo daquelas asas, o negro desbotado das docmartens. disse, não, my angel, this was not a love song. foi apenas vida.)

quando sairam de dentro um do outro já sabiam. ela sabia: já não era a mesma. ele sabia: já não era o mesmo. o espanto em forma de mãos e olhos. terão dito: eu já não sou o mesmo. eu és tu.

olham-se. tocam-se. o limite entre dois todo devassado. a carne toda escancarada. diz, olha a sombra que a minha mão projecta no teu rosto. ele olha. cinco dedos afagando o lugar onde a solidão abre rugas. em cada uma delas se inventa uma lágrima. o sal dos dias. o sal da terra. a luz do mundo. cada um dos dedos rasga o leito de cada uma dessas águas. sob a sombra da tua mão a minha pele resplandece e suaviza-se. já não há esses desertos onde a água nasce e se dá em oásis tristes tristes como dias sem sol como arbustos que ardem de falsos manás como línguas sem boca como palavras em que o sal consome as horas. diz, sob a tua mão a minha terra toda reflecte esta cor que é tua. azul diferente. ela sorri. poder. poder afastar o sal dos dias. fazer evaporar as águas que corroiem. um grito. o prazer é um grito. quase último. quase sempre último. antes do próximo.

era noite. noite noite.
a roupa ainda como uma segunda pele.
sentados agora. encostados à parede da casa. escorrem olhos da parede da casa. escorrem mãos que sustentam as paredes da casa. o corpo é esta hora com baus tão velhos em que a memória se dá. entre chiadeiras. no remanso da noite chiam-se os gritos dos nossos avós. no remanso da noite o corpo que se dá não é só o nosso. abre-se o corpo aos corpos que na noite caminham sem lugar.

antes não.
agora os corpos numa dança. ele ergue uma das suas pernas. entra nesse lago de concâva história. todos os gritos do mundo se dão no útero de uma mulher e os seios de fora da camisola dão de beber toda a dor do mundo. os seios apertados entre as suas mãos. como se quisesse extrair deles essa dor. olha como os teus mamilos são rosáceas. rodam rodam em tantas cores quantas as cores em que todos os poemas se escrevem. e eu amo em ti estes mamilos que furam o tempo. no templo do teu corpo é por aqui que o sol é filtrado. diz. quando te chega dentro todos os teus ossos o rendilham. e eu bebo desta luz. bebo desta claridade assim tão cheia de enredos.
dói-me cada um deles. dói-me como se fossem rebentar com o peso da minha história. diz. os meus seios são um lugar solitário por onde o leite escorre e alimenta as bocas do tempo.
chupa o leite. com a boca toda chupa todo este leite. chupa de mim esta imortal idade. estou cansada. diz.

as mãos apertando. os lugares em que os corpos se dão. os lugares em que os corpos se dão. cada um deles um lugar sem nome. os ossos escrevem-se nos ossos do outro. por dentro dos ossos a substância que sustenta o universo. a memória. a memória rilha-se a cada dia. os dentes como os ossos. rilham a memória.

um buraco no corpo. um sorvedouro de olhos mãos beijos de língua. dói-me o sexo. diz, dói-me exactamente esse momento em que ainda não nos rasgámos um do outro. a implosão de mim. a implosão de ti, diz. por dentro as tuas mãos reconstroiem-me.

devagar. devagarinho. a boca descendo aos segredos. a saliva como água baptismal. nomeio os nomes. os nomes em que o teu corpo se inscreve no meu. a boca tatua um rasto. não adorarás outro deus.
o beijo de nome no sexo. a língua escrevendo o nome para dizer dele. por outras palavras. doce. doce amor. o sexo como gosto doce na boca. a boca toda no doce do sexo. o nome. querida. minha. querida. o ventre todo se inicia aí dentro da língua dentro do beijo de língua. uma fome em forma de ventre. o sexo come palavras.

quero. te. diz. a urgência é um parto de murmúrios. apenas audíveis aos olhos. os murmúrios encostam-se às paredes da casa e os corpos aí se rasgam como portas. janelas. rasgam-se. o sangue pinta as paredes da casa. é um sangue de cal viva. e murmura murmura. num vai e vem. num vai e vem.

em pé. na ponta dos pés. o equilíbrio que desafia o universo inteiro. vê como a minha força contraria a que nos puxa. quase voamos, diz. os braços. as pernas. o sustentamento todo feito homem. o homem todo sustentamento. rasgar-te porta com toda a força de homem. e deixar aí a minha memória. diz. quero entrar em ti e fazer de ti a minha morada. minha. na morada.

o calor do corpo evola-se numa nuvem de vapor. junta-se ao bafo repentino. respiro do teu ar. diz. uma boca de língua súbita que recolhe cada uma das gotículas em que pensas o meu pensamento. diz. olho por dentro dos teus olhos. vejo-me-te. metade de mim eu. metade de mim deus. o deus todo num sexo de homem num sexo de mulher. furando. furando. com a urgência toda de deus acontecem milagres. verdades tão inaudíveis como os murmúrios em que o corpo chia a história dos avós. evaporo-me contigo nesta hora tão pequena. dizem.

a arquitectura do corpo no corpo. entrechocam-se cada uma das terras em que o corpo cai. istmos. penínsulas. ínsulas. abrem-se os mares quando entro em ti. diz. abrem-se as terras quando entro em ti. diz também. o azul do verde. o amarelo do quente. dois quentes. dois azuis amarelos. o silêncio todo por dentro da cor. dentro. as circunvalações de mim aprisionam-te nestas espirais de cor. falas por dizer.

a música do corpo. os intervalos por entre os vai e vem. caminhar por entre os intervalos em que o corpo se ritma. as melodias do antes. as melodias do depois. a rebate os corpos de harmonia outra

: as paredes da casa todas de sémen. e de fluídos ensanguentados de mim. diz. as paredes da casa morrem-me. morrem-me de morte matada. o meu sémen mata a morte. diz. o meu grito acolhe essa morte branca. na boca do meu corpo dizem-se coisas que são segredos.

:toda a vida a gente espera toda a morte.
na boca do meu corpo dizem-se coisas que são segredos.


tudo isto eu sonhei contigo dentro. e agora digo. mas não tem importância.

(this is not a love song, god, my man. pode agora a cidade escorrer-se de ruas. calçadas como folhas de um qualquer catecismo. néones de santos e pecadores. pode a cidade inventar-se em deus a cada esquina. vê lá se eu me importo. aqui, onde estou, contemplo as sete colinas. em cada uma se ergue a tua cruz. em cada uma delas essa cruz é lavada. mãos. mãos que a cada dia te erguem e te lavam. e esperam. esperam. toda a vida a gente espera toda a morte. e tu, ó deus, my man, dás-te em golfadas de gente. linhas intermináveis de vidas. cada uma delas entra na outra. com toda a estridência do desespero.
e cada uma delas é só. uma vida só. uma vida que se inventa. vê lá se eu me importo. podes morrer para aí a cada dia. e nascer para aí a cada dia. também.

this is not a love song. há muito que levo o beco mais escuro desta cidade na malinha de mão. escondido. entre os restauradores e as escadinhas do duque. um caminho portátil que estendo secretamente. quando a morte matada espreita de cima da praça da alegria e se dá em asas azuis. vem. vem, diz. tem a cara jovem do ricardinho e sorri. eu digo. todos os nomes secretos que a boca do meu corpo sabe. todos. em cada corpo de homem eu roubo esses nomes secretos.
um homem uma cidade pode ter uma toponímia purgando em cada nome o nosso nome.

deslizo como sombra por entre as sombras. e espreito. espreito-te por detrás das janelas. à noite deitas-te com a tua própria solidão. fazes amor e até morres. a noite é um amargor na boca. um veneno diário. a cada manhã também ressuscitas. a cada manhã te convertes a cada uma das horas do teu dia. e caminhas com todas essas pernas que a cada dia te caminham. toda a vida a gente te caminha. e toda a gente te caminha toda a vida. como se todas as ruas desta cidade fossem as pedras de um enorme e infindável caminho.

repito. this is not a love song.



( sentado. aqui no muro. contemplo a cidade que se abre aos meus pés. de engano trago comigo um galo franganote. dou-lhe o ré. mas o raio do galo é mudo. é mudo. maria, seca os olhos. hoje não cantará. nem uma nem duas nem três vezes. vejo perfeitamente a cidade dormente. e o meu acordeão é apenas uma caixinha, maria.
não faço música. as teclas morrem-lhe a cada branco. as vidas caiem com cada negro. o fole engelhado. a boca cheia do bolor dos tempos. a madrepérola manchada a dedos dedos dedos. dedos como garras. tentando arrancar da noite o dia. e se eu te disser que o dia se inventa mesmo no silêncio já podes dormir descansada?
é que
tudo o que sobe tem de descer. e se subirem mesmo essas línguas de fogo que ardem dentro de ti. e mesmo essas línguas de fogo que falam em asas de anjo. e mesmo essas línguas de fogo que dizem de ti como corpo sem corpo. e mesmo essas línguas de fogo que te emprenham a cada dia e te condenam a parir. e mesmo essas línguas de fogo
hoje serão apenas ruas no céu desta cidade
caiem de cada um dos teus olhos como estrelas menores. e em cada queda se deixam num rasto de saliva. dissolve-se a noite no dia por assim dizer.
reza por mim.

this is not a love song

cá em baixo está frio my angel. cansa-me este frio que não esmorece.
esta manhã
de cristalização. de orvalho e esquecimento. como é difícil erguer
uma mão. e ver. com a ponta dos dedos chegar lá acima. à abobadada
habitação da tua teimosia.
é só porque o meu é
o sétimo dia. o do esquecimento. a verdade em verdade me susssurra esse absurdo.
voar rente ao chão. asas de madeiro azul e crivos de chumbo. penas
penas penas. visto-me deste silêncio. a roupa de mudez tecida na noite. a raiva da lã

cardada na insónia. na transumância das entranhas. nas ruas
que se estendem entre o meu corpo e o lençol. penso-me em tresmalhados rebanhos - cordeiro do deus todo de pele e sangue - acorda, ó pastor. inventa-me
uma redenção.

estou cansada. já me dói este ar
que me enche os ossos. a luz que me rouba os olhos de noite. a insónia roxa nos músculos retesados. a minha humanidade escorrendo em suor e garras. estou cansada. reconheço-me mirrada
nestes espelhos do tempo. a eternidade do momento marcada a asas.

asas. voo. rente ao chão. por assim ser. um fado

menor.

a solidão. o silêncio. a melancolia da lenta mineralização. a vontade não chega para o sangue. não chega para a carne. nem para a alma que se estende entre o sangue e a carne.
fere-me a evidência dos dias. uma realidade de pão e vinho.
a impartilhável ceia do sentido. a solidão toda do mundo. o silêncio todo do mundo num grito:

this is not a love song


( inventem-me uns olhos novos para ver. uma água de íris

para me afogar num outro dia. órbitas que me ocupem o vazio. um rosto diferente para o corpo do ser. )




cada um de nós é uma só palavra. toda a vida aprendemos a dizê-la.










imagem gentilmente cedida pelo miguel

a verde o rui nunes. as anglopalavras dos sex pistols.

é para ti, anjo azul e para ti, homem sem importãncia, filho preferido do teu pai.







Sábado

 











i'm sick of doubt







*** escrever e reiniciar a acrobacia da angústia, a mesma que se espalhou no charco das mãos humanas, após a rampa da carne materna ***









( - que vês tu quando assim olhas?
- vejo.
- mas o quê?
- nomes. )
- tudo se torna um nome com a distância.



sete partidas. uma chegada.

UNÍS(SON)O CAIS


ausentam-se as coisas
com a tua ausência. este o tempo
em que crescem bolores nas paredes. a memória
que se guarda-
-o corpo dá-se nas rugas: o rosto de perfil:
assimetria

criaturas iguais a nós
habitam o lugar nenhum
esse limbo
fissura
do corpo
por onde escorrem as horas
iguais
iguais

ausenta-se o mundo com a tua ausência.

na boca um gosto de sal. líquido sal.
salinos os olhos. salinas
as lágrimas que a boca chupa.


1 o tio antoninho morreu tísico. era criança. penso que deveria ter quatro anos. a tísica apanhou-o por ser belo e ter um rosto de anjo. diziam este menino é um anjo, dona lourdes. e beijavam-no na cara, nas mãos, esperando-lhe um milagre. ali o vejo na fotografia oval. entre a minha avó e o meu avô , muito jovens. belos, os três. jovens e vivos e belos. a minha mãe contava-me que desde a morte do primogénito assim, às portas de um milagre, a avó nunca mais sossegou o coração de mãe. e de cada vez que a malvada da tísica se mudava para a vizinhança, ela convencia o avô a mudar de casa. diz a minha mãe que no mesmo bairro chegaram a morar em quatro casas. a fugir à morte revivida do meu tio antoninho.

2 ainda lhe chamamos tio antoninho. mas os meus avós morreram quando eu tinha cinco anos. lembro-me bem. porque primeiro a minha avó começou a aparecer na sala toda borrada nas pernas. e a criada a cantar ó tempo volta para trás. depois passei a sair todos os dias de mão dada com o avô. íamos ao cemitério. ele dizia, vamos visitar a avó. eu não a via. mas a figura imponente do avô de bengala impedia-me de o contradizer. ademais, comia sempre uma sombrinha de chocolate. vinham embrulhadas em dois papéis, um de prata de cores sempre diferentes, que eu depois esticava com a unha e guardava, e outro de celofane às cores. mas o mais bonito era mesmo a fitinha de seda. e lamber a bengalazinha da sombrinha, tentando arrancar com os dentes da frente os restos de chocolate que por lá resistiam (já não se diz sombrinha: agora é guarda-chuva. não é tão bonito).
que será feito dessas fitinhas. durante anos as vi. primeiro nos cabelos das bonecas. depois dentro de livros. um dia desapareceram. foi assim como a memória dos meus avós. sobrou-me apenas o cheiro. e essas fotografias a preto e branco em que eu apareço dentro de uma tina de cobre, na casa de tomar, de palmeirinha no cocorutu da cabeça. como se fosse uma ilha no meio daquela tina. e a mão da virgínia, a criada dos meninos, a aparecer ao lado como um istmo. foi para freira, a virgínia. já o nome o augurava. agora é madre. suspeito que aquela fotografia foi tirada para mandar aos meus pais. ficaram na guiné. onde nasci. os meus pais fizeram a guerra juntos. a minha mãe a parir dois filhos. eu e o meu irmão joão. o meu pai de sapador. no meio do mato. mas o que eu conheço da guiné são as fotos do meu pai a jogar à bola num terreiro, uma perna ligada depois de ter sido ferido com estilhaços de uma granada. e a minha mãe grávida, no alpendre da casa de bissau. ah, e o impedido do meu pai. o impedido, que raio de posto. impedido de quê? diz-me a minha mãe que ele, moço ainda, me tratava pela a nossa menina. mas depois eu vim de avião, sozinha, para casa dos meus avós em tomar. os meus pais ficaram. à minha mãe crescia-lhe no ventre o meu irmão. ao meu pai a angústia. sempre o conheci assim. com uma angústia arrependida. que só se percebia nos seus longos silêncios. ou nas noites húmidas de verão em que acordava aos berros e se sentava de olhos muito abertos na cama. a minha mãe sossegava-o. dizia, vá, dorme, já passou.
eu ouvia-o. e não entendia. mais tarde até cheguei a pensar que tinha orgasmos assim ruidosos. mas não. era a alma do sono a regressar ao húmido da guiné. e às histórias que nunca contou. por isso eu sempre amei os retratos a preto e branco em que o meu pai jogava à bola num terreiro africano. porque as outras histórias me assustavam. como os gritos dele. o tio antoninho é assim como essas histórias. está por contar, muito lindo, a preto e branco, entre a avó e o avô. na parede da sala.

3 a minha mãe foi filha tardia e única rapariga. nasceu quase morta. ela diz, nasci morta,roxa, tiveram que me meter em banhos de água fria e água quente. alternados. mas lá medrou. entre papas de linhaça e emplastros de mostarda. e teve muitos glãnglios e muita outra coisa com nomes esquisitos mas que não eram nem festas de aniversário nem rebuçados embrulhados em papel de seda. e eu às vezes penso que deve ter sido estranho ser assim arrancada à morte e viver entre remédios de nomes estapafúrdios e de cheiros tão improváveis como a mostarda no pescoço e a linhaça no peito. eu, que me afligia com o cheiro da menstruação e imaginava cenários de horror em que todos os meus colegas se riam do meu cheiro de mulher, pensava-a muito corajosa. agora não. dou por mim a encontrar um prazer peculiar no meu cheiro.reconciliei-me tarde com isto de ser fêmea. em boa verdade penso até que foi preciso chegar aos quarenta anos para isso acontecer.
é que a minha mãe, com o seu pragmatismo de sobrevivente e a sua ãnsia de mulher emancipada deixou-me um rasto de negação. e eu cresci a desejar poder mijar de pé e não ter o período. surpreendia-me sempre com os rapazes que se apaixonavam por mim. sentia-me um patinho feio no meio de um bando exuberante de pavões. e escrevia longuíssimas cartas de amor imaginado a um objecto de amor imaginado. assexuado até. ou melhor, tanto queria morrer pelo olhar do james dean, como pelo corpo da brigitte bardot em viva zapatta. o que me trouxe algumas noites da mais profunda angústia. mas isso eu não contava a ninguém. nem à minha melhor amiga. só mais tarde. ao joão paulo. quando nos apaixonámos impossivelmente a caminho do gerês para umas férias. mas do amor que sentíamos não lhe conhecíamos ainda o nome. o corpo falava-nos numa linguagem desconhecida. para ali ficámos todas essas noites trocando carícias por beijos e abraços por amplexos. e foi então que passámos a confidentes um do outro. até hoje.

4 as coisas da vida sucedem-se na nossa memória muito sem nexos de causalidade. por exemplo, porque raio é que ao falar do joão paulo nasce em mim esta estranha imagem da visita a casa dos meus primos em tomar. antes de irmos almoçar com eles passámos a ver a nossa casa. e lá estava, o portão alto, o quintal para onde caiu o gato que o meu irmão joão pendurou da janela, o muro de pedra que dava para o colégio sei lá das quantas perto do qual caiu uma pedra em cima da unha do pé do meu irmão miguel, que nem chorou quando lha arrancaram, só ficou assim muito branco, as marquises de janelas em quadrados de ferro. e de repente, a minha avó lucinda, noutra casa, abrindo a porta das traseiras e eu e os meus irmãos a ver passar o rebanho de ovelhas. cheirava ali ao mesmo cheiro que vinha agarrado a ela quando voltava da terra. trazia os queijos e o pão de azeite, a bica. não sabia a nada, a bica, a não ser azeite, era achatada sem miolo. mas a minha avó lucinda fazia dela um ritual. talvez porque viver na cidade sem nunca ter abandonado verdadeiramente a terra nos dê essa nostalgia de pão. as fatias de bica beirã eram barradas com flora e consumidas dias a fio. com café de saco. coado por um funil de flanela que de branca passava rapidamente a escura, e que secava sempre pendurado na torneira do gás, junto ao fogão.
houve um verão em que eu e o meu irmão paulo fomos com ela. o paulo era muito querido por todos. assim como o tio antoninho. de cara muito redondinha e loiro parecia também ele um anjinho. todos o beijavam. lá na terra. da minha avó. mas não morreu de tísica.

talvez a minha terra tenha sempre sido estes amigos. a quem contei os segredos da brigitte bardot. e outros. também segredos. quando morrer quero uma campa de rosas e segredos.

5 o meu avô paterno morreu em espanha. e está enterrado em badajoz. durante o resto da vida todos os anos a avó viúva mandava uma carta com uma nota lá dentro para a senhora que ia tomar conta da campa.
os meus avós maternos estão em tomar. juntaram-se às lendas da minha infância. como aquela do santo condestável ou o viriato trágico e que eu lia em adaptações editadas pela sá da costa. eles agora são assim. todos eles. as personagens do assombro.

6 o meu avô era militar e a minha mãe andou no colégio de odivelas. suspeito que não gostou mas quando fala desses anos refere a estupenda educação que lá teve. pois. e que lhe serve hoje para maldizer o ensino e a falta de preparação que começa nos professores, diz ela sempre muito convictamente enervada, de cada vez que tento falar da minha perplexidade perante acontecimentos da vida escolar dos meus filhos. olha se agora eu desse em partilhar com ela estes mistérios da minha vida de fêmea. provavelmente atirava-me com o colégio de odivelas e dizia, filha, toma um lexotan e vai dormir que isso passa.
dormir em minha casa era uma acto obsessivo. não dormir tornou-se no meu acto revolucioário. greve às intermináveis sestas de verão. as horas certas para o beijinho boa noite e até amanhã se deus quiser, e na cama, debaixo dos lençóis, a lanterna a correr páginas. (sim, mamã, não durmo)
a noite sempre foi assim um misto de silêncio de arrepio e de silêncio onde tudo podia acontecer. até o scott fitzgerald aparecer, puxar as mantas e deitar-se de papo para o ar, a contar muito lentamente, com o corpo todo esticado e sem descalçar os sapatos de verniz, a festa bestial de onde vinha. bestial era uma palavra muito na moda na altura. e fina. só a gente fina dizia bestial. os outros diziam giro. mas o meu pai não gostava que usássemos essa palavra. dizia, qualquer dia não há outro adjectivo, é tudo giro. pois. agora é fixe, ou bué da fixe. sempre há outra. mas o fitzgerald dizia bestial e darling. estranhamente quando vi o grande gatsby ele tinha a cara do robert redford. um deus americano. uma amiga obrigava-me a percorrer todo o seu album de recortes redfordianos. achava que lá estava o meu darling. mas não. o fitzgerald era mais assim uma figura de cabelo todo escorrido a brilhantina, o corpo esguio, as pernas longas e uma mãos, ah, senhores, umas mãos brancas com um anelzinho no dedo mindinho.

7 porque passei a gostar de figurinhas meio tísicas meio decadentes. que se arrastavam pelo mundo com aquele tédio, aquela nóia, toda feita de uma náusea existencialista. diziamos nós. eram figuras da vida real. olheiras profundas. olhares tristes de míope. uns eram assim como metamorfoses do kafka. outros corvos do poe. muito muito cheios de boris vian. vivíamos muito a sério da nossas perversões de morte. e morte. a morte é bela quando a adolescência é uma doença grave e o tempo que passamos a sarar as feridas que o tempo abriu pode revelar-se uma máquina infernal. como um comedouro tremendo em que tudo é estilhaçado e reduzido a imagens soltas. que depois se colam a nós.

as máquinas mais estranhas sempre habitaram a nossa casa. uma, a máquina do silêncio. toda fabricada de palavras por dizer. conversas que eram apenas ecos na minha cabeça. ou carinhos trocados à noite em rodas dentadas, dentadas. que chiavam muito. sobrou-me a palavra fanerogâmica e a palavra filoxera. essas o meu pai não meteu na máquina do silêncio. fui eu quem as triturou na mixer dos meus dias e das minhas noites. outra, uma espécie de ventoinha eléctrica de meter no tanque da roupa era a máquina de lavar que levávamos para férias. estranho aparelho que a única coisa que fazia era revoltear a roupa dentro do tanque. e se nos descuidássemos também o detergente inchava e galgava para fora. depois eu e os meus irmãos patinávamos aí. nessa pista de gelo detergente da roupa. havia também uma panela eléctrica amarela que fazia o melhor arroz de frango das redondezas. e era só meter lá tudo e programar. depois o tempo era de fugir para a sala. a cozinha em minha casa era uma espécie de cadeia rodeada de arame farpado. só lá se entrava depois de se cometer o maior crime de todos: ser mulher e ter de cozinhar para a família. na maior parte das vezes a condenada era a minha avó. a minha mãe era uma imagem cómica na cozinha. cigarro numa mão, livro na outra, indaguei-me muitas vezes como lhe sobravam mãos para misturar as coisas de comer. mas ao domingo por vezes não. lá vinha o cozido à portuguesa. eu e os meus irmãos tinhamos um ritual para consumir o cozido. depois de tudo espalhado e diferenciado no prato o eleito rei do cozido comandava as garfadas. farinheira. tudo comia farinheira. nabo. ninguém a não ser eu comia nabo. arroz. ríamos. o riso dos tolos, dizia o meu pai. se sobrava farinheira a vó escondia-a. era louca por enchidos mas a minha mãe dizia, a mãe não tem juízo, não, não come os enchidos hoje. ela olhava o filho, o meu pai, mas este olhava o prato em silêncio. lá tinha eu de fingir que não a via esconder a farinheira que sobrava no armário do café. não mamã, deitei fora. a avó piscava-me o olho e deitava a língua de fora, ora toma, dizia. cúmplices no crime. como quando fugi de casa a primeira vez e depois fui parar a casa dos meus tios. ela telefonou-me uma tarde de domingo e disse, vem agora que não está cá ninguém. e eu voltei para casa. sem ir encolhida. porque não estava lá ninguém. só a vó. a máquina do silêncio nela maquinava frases assim. cheias de um entendimento quase de criança.


Ó, PUDESSE ESTA SER UMA NOITE A DOIS TEMPOS:
NUM, A PARTIDA DA MATÉRIA DO MEU CORPO; NOUTRO,
CHEGAR CEDO A UMA PALAVRA PARA O NOMEAR
NO ROL DAS COISAS...O QUE ME ACONTECE
É A BREVIDADE ENTRE SER E TER. E A NOITE DEIXA-ME UM GOSTO
DE ESCURO INADIÁVEL
INADIÁVEL


o rasto de seda húmida da tua boca. a transparência
dos teus olhos como dossel. esta é a cama em
que duas rotas se cruzam. há um estranho
percurso na cor que derramas sobre mim. qual o destino
dessa cor aguada. os teus olhos
são andarilhos no meu corpo. e
desbravado à tua passagem
o tempo acontece entre os meus seios
as minhas coxas
os meus lábios
como uma réstea luminosa
da tua presença. cheira a amanhã.


e por empréstimo tomamos como nossa a eternidade.



quanto de nós vem agarrado às fotografias que descobrimos nos albuns de família. desejaríamos poder retocá-las como antigamente os fotógrafos quando compunham as faces lívidas dos mortos no seu leito. eu por mim retocaria o tio antoninho. com a sua história por contar, sempre a pesar por aqui, de cada vez que lhe descubro o retrato encontro uma razão diferente para a beleza dele. ou o tio luís. com a sua tristeza toda de olhos e uma morte aos trinta e seis. de amor. sempre imaginei que morrera de amor. e isso marcou a minha existência mais do que qualquer romance que tenha lido.
não é fácil ter na vida um tio materno que morreu de amor. era belo. com um olhar tão triste quanto belo. e jovem. eu creio que foi o meu homem imaginado durante muito tempo. depois aparece nos retratos com um chapéu puxado sobre os olhos, um chapéu escuro de feltro, ao lado de uma fonte. ele muito sério. talvez a morte já o rondasse. do outro lado o irmão. o único tio que conheci.
a vida do tio luís roubei-a de cartas que li às escondidas. cartas que escrevera aos meus avós. lá do desterro onde voluntariamente se deixava morrer. e as respostas. as cartas diárias que a minha avó lhe escreveu mesmo já depois de morto e enterrado.
diz a minha mãe que a avó tinha sonhos premonitórios. e que sonhou a morte do filho e foi por isso que desistiu da realidade. talvez. viver assim numa espécie de presente passado em que tudo é perfeito é mais fácil. como a canção que a criada insistia em cantar.
a criada cantava ó tempo volta para trás. fritava jaquinzinhos. recordo o cheiro a frito e a canção. casou com o impedido do meu pai. lá de tomar. mas durante anos o que restou dela foi essa canção que tomou conta do meu universo de saias e cheiro a peixe frito. até que a minha avó lucinda ocupou tudo. trazia na bagagem um rol de provérbios, ditados, dizia, que aplicava com habilidade a todas as circunstãncias da vida. não gostava que eu assobiasse. e cantar era apenas tolerado. ó menina, dizia, pareces uma tola. ela era a senhora do lar e a senhora dos nossos dias até ao regresso da minha mãe ao fim do dia.
depois voltava a ser a 'vó.
a mãe e a 'vó sempre disputaram o seu lugar na nossa vida. mas a 'vó acabava por ganhar. era quem estava lá. e eu ouvia à noite as discussões em surdina. a minha avó não achava certo a minha mãe trabalhar e voltar tão tarde e não ser uma irrepreensível fada do lar. e achava que eu era uma cavalona. cavalona foi um nome que me acompanhou durante muitos anos.
vai para casa, cavalona, ouvia as mulheres da vizinhança gritarem-me quando cavalgava os baloiços ou trepava as nespereiras com os meus irmãos. fazia orelhas moucas e chinchámos muita fruta nos quintais do bairro.

não há fruto mais sumarento que o proibido. mesmo que para isso tenhamos que ser cavalonas.




SERIA MAIS FÁCIL REINVENTAR-NOS. O DIA
CONTINUA A PENETRAR AS JANELAS. FORMA SONS
QUE ECOAM NESTAS PAREDES. ANDA. VAMOS CONVOCAR-NOS
NO SILÊNCIO RUMOROSO DOS NOSSOS CORPOS. E PARTIR.
O MUNDO PODE SER UM LOCAL SILENCIOSO. SIM. AQUI. ENTRE
A MINHA
E A TUA
PELE HÁ UMA HORA INTERMÉDIA. TALVEZ SE DIGA
ALEGRIA. TALVEZ SE DIGA ALEGRIA.


se a bagagem em que nos explicamos for
reduzida ao peso mínimo
certamente a minha
e a tua alma enchem de plumas este mesmo lugar.
então toda

a vida encerrada numa mala
cabe numa palavra. por inventar as sílabas
em que nos soletramos. qual delas me pertence. e
a tua como a dizes.

a luz invade esta sala de espera. desfaz-se em poeira
contra os móveis. móveis de imobilidade absoluta. há
quantos anos estas cadeiras aqui
no mesmíssimo lugar
recebem corpos desencantados. a vida é uma espera. e toda a vida
se espera toda a morte.

e todavia bastaria uma paisagem diferente
para nos amenizar
as partidas. as chegadas. por dentro dos dias
os caminhos

eliminariam os sentidos proibidos. mas
aqui
nesta sala de espera
tudo o que cá permanece
me ignora. e ignora
esta viagem interior da palavra
do gesto
na comoção do gesto. sento-me também eu. irremediavelmente.



QUANDO NO MEU CORPO SE ABRE A DOR
é todo o chão sob os meus pés que me foge. descalça
sinto cada uma das pedras pelo caminho. o basalto
é frio. tão frio o caminho como uma lápide qualquer
em que se inscreve o nosso nome.
passo a mão no rosto. alívio. sinto a tua mão
aqui
que me seca este suor frio.
cheira-me ainda a amanhã.




cada uma das linhas que se traçam na palma das minhas mãos
conta uma história diferente. aqui
emprenhei de espanto. ali desencantei
-me. partida
largada
fugida. ecos. ecos. e sentada
espero. neste cais
subitamente
um silêncio
abobadado cresce. olho
-me: a alma aos pés já empacotada.
leva pela mão a sua mão vazia, esse filho discordante. é triste
o acenar do adeus-adeus num cais cheio de gente. as gentes
perfilam-se
junto à risca amarela-
não trespassar-
quase unidas quase sabendo umas das outras e cresce
esse momento em forma de mãos. há um sentimento que balança
para cá
para lá
entre ter e querer. entre ter e ser. ter de ser.
vou dizer que a risca amarela me divide
de ti.
desculpa. a vida toda a tentar apagá-la
e agora mesmo
cresce esse momento em forma de mãos
e eu sei. adeus-adeus.

não gosto da palavra adeus. prefiro até já.
é a urgência. com todo o esplendor do já visto
e que vai acrescentado. acrescentar uma sílaba. acrescentar
no corpo a parte-ida. quando assim me leio
parte ida partida
o anagrama do meu próprio nome assoma: amar-te
um tê esvaído enfrenta-me: a morte: amar-te como à morte
e assim me arrancar a mim mesma


DESMANCHAR UM PENSAMENTO
pingá-lo do sal de todos
os risos. não sei como é que as lágrimas
se mascaram de alegria. mas adivinho
que é aí
entre os teus braços
que a chegada é mais doce. deixo-me
embalar pela música
que nasce com o pensamento de ti.

estou num tempo indefinidamente prolongado em que as coisas
têm nomes tão indizíveis
que nem as posso nomear. por exemplo
a morte no corpo. como a deveria chamar. re clamação?
sobem as sílabas como febre
os olhos reverdecem em letras de cor estranha
a mim mesma.
na boca há um som prolongado. uma única palavra
bastaria para matar esta morte de mim.


cada um de nós é uma só palavra. toda a vida aprendemos a dizê-la



i want roses in my garden.
dá-me essa morte
num
jardim escuro vazio
numa qualquer cidade

num qualquer tempo. semeamos toda a vida
as rosas de que iremos brotar. jamais
as veremos porém. mas
o seu perfume é irrepreensível. eu quero
rosas no meu jardim. aveludadas
pétalas para que me toques com volúptia
e sintas o arrepio de prazer que
que dizes rasgar a tua pele
quando nos deitamos
um no outro. quero
o vermelho do sangue transmudado em espinhos
que hão-de pingar o teu vermelho
na minha seiva. não há perfume
mais intenso que o dos amantes. não há
cor mais intensa que o rubro dos amantes. a
incandescência dos corpos desfaz-se
nessa rosa vermelha. roses
roses in my garden.




AGORA
como se tudo tornasse ao branco
erguem-se estas paredes
de cal. viva
reescrevo a minha história

por entre as brechas que o tempo me deixa.
regresso aos lugares que sempre me pertenceram. uma
cama larga. um livro. as plumas leves do dia
por agasalho e tu. o teu corpo
como cais de embarque.
a viagem mais longa que farei
começa agora.



girl you gotta love your man. take him by the hand
make him understand the world on you depends our life will never end you gotta love your man cavalgar o asfalto quente desta vida a bordo de um enorme autocarro azul, dizias, e eu escutava embevecida com a ideia de transportar toda a casa sobre um único rodado.




uma imobilidade mansa toma conta de mim. i prefer a feast of friends to the giant family.




rui nunes.o grito. ***subtítulo de luisa monteiro, o evangelho das rãs, a foto de casa do afonso.
blimunda e james douglas morrisson, we're so sick of doubt.





águas passadas

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da mesma casa

*i'm sick of doubt* *breaking the waves* *let's reinvent the gods* *feast of friends* *i'm a barbie girl* *o baltasar da blimunda. a blimunda do baltasar*

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